terça-feira, 10 de julho de 2018

Centrale Montemartini - o passado antigo e o passado recente

Hoje irei apresentar um museu muito interessante mas conhecido por poucas pessoas,  apesar dele se localizar em uma das cidades mais visitadas do mundo, a cidade eterna - Roma. 

Quando comecei meus estudos em restauro e preservação, em um curso livre do Museu de Arte de São Paulo - MASP, este projeto foi apresentado aos alunos, mas só esse ano tive oportunidade de conhecer pessoalmente.

A Centrale Montemartini é um museu instalado na antiga termoelétrica da cidade, em uma edificação de 1912. Nos anos 90 a cidade de Roma precisou de um espaço provisório para guardar parte do acervo dos Museus Capitolinos que passariam por reformas, e a exposição, a principio provisória, se tornou permanente com um acervo de peças do império romano e grego que foram encontradas em escavações para obra do metrô de Roma. 

O espaço impressiona quando encontramos, no mesmo local, o passado antigo da era grego-romana e o passado recente da era industrial. No andar inferior também temos peças do império egípcio. 

Aconselho aos visitantes observarem não só as esculturas antigas e os maquinários mas também as técnicas construtivas da edificação. O trabalho de escaiola, também usado aqui no Brasil para revestimento de paredes e colunas, impressiona!










Detalhes da edificação: piso em mosaico, escaiola nas paredes e ferro fundido das luminárias
escaiola, técnica que imitava mármore, também utilizada no Brasil

Detalhe da técnica de escaiola






** imagens da autora
*** para mais detalhes sobre o museu Centrale Montemartini acesse www.centralemontemartini.org 

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 19 de junho de 2018

Frase inspiradora:

"O dilema das proteções à arquitetura moderna adveio das dificuldades de considerá-la passado. Um dos pontos nodais é o aparente paradoxo de se preservar uma arquitetura postulada para romper com as tradições. No entanto, tratá-la como patrimônio não significa decretá-la ultrapassada. Significa, ao contrário, entendê-la como parte viva e importante de nossa cultura contemporânea e enfrentar o desafio de compreender a relação entre os conceitos originais que a nortearam e sua utilização no presente"

Flávia Brito do Nascimento
Blocos de Memórias. 
Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural.
pag. 440

Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Forte Santa Cruz de Itamaracá - Obra de restauro finalizada

Em 2016 fizemos um post sobre a visita técnica que a turma do CECI realizou, no ano de 2015, no canteiro de obras do Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Após 2 anos, eis que eu vejo, na rede social, fotos da obra concluida.

Quem postou as fotos foi minha colega do curso de especialização do CECI e arquiteta do IPHAN/PE  Márcia Hazin.

Infelizmente o Forte ainda não está aberto para o público, mas compartilho com vcs as fotos da obra finalizada.

*imagens Márcia Hazin - arquiteta IPHAN/PE

Postado por Cristiane Py


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Segue a dica: Leonardo Da Vinci de Walter Isaacson

Em posts anteriores, já falamos sobre os valores que transformam um bem em patrimônio cultural. Sabemos que eles vão além do histórico e estético, abrangendo também aspectos cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos, éticos e simbólicos. Para compreendê-los plenamente, é essencial não apenas conhecer a história, mas também situar o bem em sua época, acompanhar sua trajetória ao longo do tempo e entender as particularidades que conferem seus valores únicos.

Diversos livros de autores renomados exploram essas questões e nos ajudam a aprofundar essa compreensão. Um exemplo clássico é História da Arte como História da Cidade, de G.C. Argan. Apesar de ser uma leitura desafiadora — li três vezes, fiz fichamentos e ainda sinto a necessidade de revisitá-lo —, a obra oferece uma visão rica e detalhada sobre como a arte se relaciona com a evolução das cidades.

Por outro lado, Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, apresenta uma leitura mais leve e envolvente. O autor, também responsável pela biografia de Steve Jobs, narra com maestria a vida de Leonardo, desde o nascimento até sua morte, oferecendo um retrato completo do artista renascentista.

O grande mérito do livro está no olhar humano e acessível que Isaacson lança sobre Leonardo. Ele nos ajuda a entender por que o artista é considerado um dos maiores do Renascimento (se não o maior) e por que obras como Mona Lisa, A Última Ceia e São João Batista são tidas como verdadeiras obras-primas.

Além disso, o livro mergulha na rotina de trabalho de Leonardo, seus sonhos, expectativas e vida pessoal, ao mesmo tempo que apresenta um retrato fascinante do contexto renascentista. A leitura me inspirou a refletir sobre como a invenção da imprensa naquela época democratizou o conhecimento, algo que considero análogo ao impacto da internet em nossos tempos.

Fica aqui a dica de leitura! E, claro, vou adorar saber suas impressões depois que mergulhar nessas páginas.

*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Restauro Urbano - O projeto do SESC 24 de maio

No post A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte III,  falamos sobre o projeto Carré d'Art, Museu de Arte Contemporânea, de autoria do escritório Foster+Partners. Localizado na cidade de Nimes na França, o museu, inserido em um tecido e ambiência histórica, respeitou e dialogou com o seu entorno demonstrando como uma arquitetura contemporânea pode integrar-se ao sítio histórico sem abrir mão da sua atualidade.

Mas não precisamos ir tão longe para encontrarmos bons exemplos de projetos contemporâneos  inseridos em tecidos urbanos históricos. A nova unidade do SESC - Serviço Social do Comércio, localizada em uma esquina na rua 24 de maio no centro antigo de São Paulo, é, a meu ver, um dos melhores exemplos de restauro urbano.

Vale lembrar que essa área do Centro Histórico de São Paulo, além de ser exclusiva aos pedestres, é marcada por conter várias galerias que cruzam os quarteirões e que se misturam com o tecido urbano. Podemos citar a tão famosa Galeria Olido,  a Galeria Presidente, a Galeria P. Monteiro, o Boulevard do Centro e a conhecida Galeria do Rock, todas elas no entorno próximo ao SESC.

Entrada da Galeria Olido pela Av. São João
Galeria Presidente, localizada em frente ao SESC 
Vista do SESC a partir da Galeria Presidente
Galeria R. Monteiro localizada ao lado do SESC
Galeria do Rock com acesso pela Av. São João e rua 24 de maio
Boulevard do Centro, também no entorno do SESC


O projeto, de autoria do escritório Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos, consistiu em uma grande reforma com aumento de área em uma edificação, sem valores culturais, que antes era ocupada por uma loja de magazine. A nova arquitetura tirou partido e resgatou os valores das antigas galerias, fazendo o SESC não só se abrir e convidar São Paulo para adentrar, como também ser um ponto de partida para a revitalização do abandonado Centro Histórico de São Paulo.


A esquina agora ocupada com a nova unidade do SESC
O andar térreo aberto para a cidade. Resgatando os valores das antigas galerias
Rampas dão acesso aos andares superiores fazendo a circulação aberta do térreo prolongar-se por todo o conjunto
Espaços livres dos andares superiores. Áreas de descompressão no agitado Centro Paulistano
Os demais pisos também abrem-se para a cidade.
Sistemas de sprinklers. Alternativa para o combate contra incêndios nas rampas não enclausuradas. 
Áreas abertas em todo o conjunto

* imagens da autora - abril de 2018
Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 22 de março de 2018

Cidade histórica e acessibilidade - o exemplo do Pelourinho, Salvador (BA)



Tanto a preservação do patrimônio como os direitos de acessibilidade percorreram longas trajetórias (ambas iniciadas há mais de 200 anos) até chegarem, respectivamente, na Carta de Veneza de 1964 e na Declaração dos direitos humanos das pessoas deficientes em 1975.

No Brasil, a primeira norma de acessibilidade, a NBR9050, foi redigida em 1985 mas só após 18 anos (2003) o IPHAN promulga a Instrução Normativa n. 1 sobre acessibilidade em bens tombados.

O Projeto piloto de rotas acessíveis no Pelourinho (que usou como referência um projeto já implantado em Olinda - PE) teve início no ano de 2011 demonstrando que os universos da preservação do patrimônio e da acessibilidade hoje caminham juntos e que o debate não fica mais  limitado entre os campos da preservação ou da acessibilidade, nem tampouco entre as pessoas que prezam pela preservação ou as pessoas que necessitam de acessibilidade, mas sim entre duas disciplinas cujas diferenças metodológicas sempre poderão resolver-se no plano dialético ou entre dois universos ou sistemas que, segundo Niklas Luhmann, operam com base na comunicação.

Abaixo várias imagens da rota acessível do Pelourinho que demonstram como um projeto bem elaborado pode sim atender a essas duas questões: Preservação do Patrimônio e inclusão de pessoas portadoras de necessidades especiais em sítios históricos.

guias rebaixadas e piso diferenciado nas travessias
Vagas especias demarcadas no último piso do estacionamento com acesso direto e acessível ao centro histórico
Saída do estacionamento, já com ligação na rota acessível que percorre o sítio histórico.
calçada acessível desde o estacionamento
calçada com piso adequado e largura suficiente para atender usuários de cadeira de rodas. Vejam que o projeto não prejudicou o ambiente histórico.

guias rebaixadas e piso das travessias com as pedras niveladas


com recente obra de restauração, a Igreja de São Domingos hoje possui  acessibilidade.
projeto de Lina Bo Bardi teve suas pedras mantidas mas niveladas
rampas acessíveis permitindo  a vista para o Pelourinho


Para mais informações sobre o plano piloto do pelourinho, acesse Projeto Piloto de Acessibilidade, Centro Histórico de Salvador

*imagens da autora - nov 2017
Postado por Cristiane Py

terça-feira, 13 de março de 2018

Frase inspiradora:

" Assim, as ciências históricas, em sentido lato, incluindo toda uma parte das ciências sociais, enraízam-se, de modo mais ou menos consciente, na convicção de que a história pesa mais em nossas vidas quando a ignoramos. Conhecer sua história é, consequentemente, trabalhar para a própria emancipação, de modo que o ideal democrático da liberdade de pensamento e da autonomia não possa evitar uma passagem pelo conhecimento histórico, nem que seja para abordar o presente com menos preconceito."

Luc Ferry, Aprender a Viver, filosofia para os novos tempos, pag. 217