sábado, 4 de setembro de 2021

Estudos e análises também para pequenas intervenções.

Qualquer intervenção em um patrimônio cultural edificado deve sempre ser acompanhada de um estudo e por profissionais habilitados, mesmo que a intervenção seja pontual.

Vamos mostrar abaixo um estudo de caso.

Laje pátio descoberto antes da execução das obras

Infiltrações no piso inferior

Nessa edificação há, no terceiro pavimento, um pátio descoberto cuja a laje apresentava sérios problemas de infiltrações trazendo danos para as salas do pavimento inferior.

Para sanar as infiltrações era necessário refazer a manta de impermeabilização e, para isso, o piso existente deveria ser removido.

O piso era composto na sua maior parte por cimentado, mas possuía nas laterais uma tabeira de pedra ardósia e, ao centro, uma passadeira de ladrilho.

Tabeira de pedra ardósia
Passadeira em ladrilho

Após pesquisa, foi descoberto que a tabeira em ardósia havia sido instalada em uma intervenção recente realizada já com o intuito de tentar solucionar as infiltrações, mas sem sucesso.

Foi realizado então um parecer técnico acompanhado de um relatório fotográfico para apresentação e aprovação nos órgãos de preservação.

A princípio foi previsto que a passadeira em ladrilho hidráulico fosse removida cuidadosamente, peça por peça, para reinstalação após o refazimento da manta de impermeabilização.

Com o início da obra foi verificado que o ladrilho estava muito aderido à superfície e apenas 10% das peças conseguiram ser removidas sem quebra. Essas peças foram usadas para reposição das soleiras.

A manta de impermeabilização e o contra-piso foram executados conforme o parecer, mas novos estudos foram iniciados para a definição do revestimento a ser instalado.

O ladrilho da passadeira, bem como o desenho das peças, também está presente em diversas outras áreas da edificação e a opção de executar réplicas não se justificava.

Piso similar ao da passadeira, presente em outras áreas da edificação.

A instalação de um piso cerâmico de mercado não se mostrou satisfatória por ser difícil conciliar o diálogo entre a cerâmica nova e o ladrilho antigo existente nas áreas adjacentes.

Após estudos e pesquisas, o material escolhido para o revestimento do pátio foi o fulget em tom cinza.

Piso fulget

O piso fulget é um piso feito com pedras moídas e, por ser antiderrapante, ideal para áreas externas. Ele é similar ao granilite, mas por não possuir resina tem um aspecto mais rústico.

A técnica do granilite foi trazida para o Brasil por imigrantes italianos há 50 anos, mas desde o século XVII os ancestrais do granilite e do fulget já eram executados na cidade de Veneza, Itália.

Por ser um piso atemporal, o diálogo entre o piso fulget com os revestimentos originais se fez de forma harmônica mantendo os pisos antigos como protagonistas, mas não deixando de registrar a marca do seu tempo.

Pátio descoberto com a obra finalizada - revestimento em piso fulget.

Vale ressaltar que antes da execução do piso fulget um parecer complementar foi apresentado para aprovação nos órgãos de preservação. 

*imagens da autora
* imagem piso fulget - acesso setembro/21 https://conspem.com.br/

Postado por Cristiane Py

sábado, 28 de agosto de 2021

Segue a dica: Proteção e revitalização do patrimônio cultural no Brasil.

Aqui no blog vira e mexe falamos da importância de conhecer e se aprofundar na história. Conhecer o passado é uma forma de entender o presente e principalmente projetar o futuro.

Quando vamos intervir em um patrimônio cultural, o estudo e pesquisa do seu passado histórico, bem como a sua relação com a comunidade no presente, são imprescindíveis para podermos traçar as diretrizes do projeto de restauro.

Mas há uma outra história que também é necessário conhecer. É a trajetória da forma de pensar, de uma determinada época,  que geraram leis, decretos, secretarias, programas etc... a favor da preservação do patrimônio cultural.

Entender esse percurso também é importantíssimo!

Então seguem abaixo 03 indicações de leituras para aqueles que desejam se aprofundar no tema. 

As duas primeiras indicações falam da história da preservação no Brasil. 

O livro amarelo conta desde os primeiros projetos de lei dos anos 1920 até o começo dos anos 1980.

O segundo livro é uma coletânea de artigos, escritos e falas de Aloísio Magalhães, um dos personagens mais importantes (ao lado de tantos outros) que ajudou, nos anos 1970 e 1980, a transformar e resgatar  valores do anteprojeto de Mario de Andrade de 1936 até então adormecidos.

O terceiro e último livro é da historiadora francesa Françoise Choay que nos conta a história desde o monumento antigo até a era da indústria cultural do ponto de vista europeu.


*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

domingo, 22 de agosto de 2021

Frase inspiradora:

 "[...] uma nação não se constrói apenas com a preservação das suas representações mais monumentais, no sentido de obras de arte, no sentido de acabamento intelectual e no sentido de formas expressivas e elitistas do fazer do homem neste contexto. Uma nação se constrói à base da soma dos gestos, dos comportamentos, das atitudes, dos feitos, das realizações que envolvem todos os seres na integração com o espaço que lhe é destinado, espaço físico, o espaço do qual ele é dono, tutor e ao mesmo tempo responsável."


Aloisio Magalhães

Bens culturais no Brasil: um desenho projetivo para a nação

pag. 320

sábado, 14 de agosto de 2021

O Caso das Cremonas

No post Revista Restauro - No canteiro da obra no antigo edifício da Bolsa Oficial do Café - Museu do Café - Santos/SP compartilhei um pouco da experiência de fiscalizar uma obra de conservação e restauro.

Várias foram as adversidades encontradas no caminho, cito algumas delas no artigo, e hoje vou compartilhar com vocês o caso das cremonas que aconteceu na vistoria de entrega provisória.

Para quem não sabe, segue a definição dada pelo Dicionário da Arquitetura Brasileira Corona & Lemos:

CREMONA - Ver CARMONA

CARMONA - Ferrôlho que, colocado em tôda a altura de uma janela ou uma porta se aloja a um só tempo em cima e em baixo. A palavra dêste verbête é um galicismo que provêm de "cremone", e daí a existência entre nós, também, da forma CREMONA (sic)

mas vamos simplificar colocando também a definição dada pelo dicionário on-line de português:


No Salão do Pregão da edificação há 5 portas de madeira com vidros coloridos e cremonas ricamente ornamentadas. Vejam a foto abaixo.



Essas portas passaram por processos de higienização, conservação e restauro, incluindo suas ferragens (entre elas as cremonas).

02 portas não possuíam mais as cremonas originais que foram perdidas no tempo. Para o bom funcionamento dessas esquadrias fazia-se necessário repor as cremonas.

Nem o memorial e nem o projeto de arquitetura especificava qual modelo ou a forma de reposição dessas peças. A equipe de obra então seguiu a metodologia de não fazer uma réplica das peças históricas e instalou peças contemporâneas.

Aí começou o Caso das Cremonas.

Vejam abaixo foto da cremona original e, ao lado, a foto da cremona  instalada pela equipe de obra.


A justificativa pela equipe de obra em não fazer uma réplica para evitar um falso histórico era sim muito pertinente, mas a cremona não foi aceita pela minha fiscalização.

Minha justificativa foi que poderiam ser usadas peças atuais para substituição, mas elas deveriam seguir o mesmo padrão que as originais. Ou seja, não há problema em substituirmos peças faltantes por peças novas, desde que as novas peças dialoguem e harmonizem com as peças pré-existentes.

O modelo da peça instalada pela equipe de obra era visualmente inferior às cremonas originais.

Posso dizer que a discussão foi longa e acalorada, sempre é assim nas obras de restauro quando existem pontos de vistas diferentes entre os integrantes das equipes, mas, no fim, a equipe de obra se comprometeu a pesquisar e encontrar uma cremona compatível com o bem patrimônio cultural.

Vejam abaixo a cremona, facilmente encontrada no mercado, que, apesar de ser uma peça contemporânea, dialoga e se harmoniza com as peças pré-existentes e a edificação patrimônio cultural.


O Caso Cremona é uma situação muito comum em obras de restauro mas para evitar esse tipo de conflito seguem algumas dicas:

- Para o arquiteto: fazer um projeto de restauro bem detalhado e com especificações completas.

- Para o executor da obra: caso haja itens em abertos no memorial ou no projeto sempre questionar o projetista e ou a fiscalização antes de tomar um decisão. Vale lembrar que a interdisciplinaridade no restauro é fundamental.

- Para o fiscal: seja sempre aberto ao diálogo. Nesses momentos o que vale mais é a troca de idéias e não  a imposição de valores.

*imagens do acervo da autora
Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Frases inspiradoras: Carta do Rio de Janeiro - UIA2021Rio - 2021

" O Centro das cidades representa o território da cidadania, patrimônio histórico e cultural da sociedade, símbolo do espaço democrático e lugar de expressão da diversidade. Os centros precisam ser permanentemente cuidados e valorizados, para evitar seu esvaziamento simbólico, econômico, político e social."



"A boa cidade é aquela que tem como foco a condição humana, o respeito ao meio ambiente, a valorização do patrimônio natural, histórico e cultural [...]"

Carta do Rio de Janeiro - 2021


Postado por Cristiane Py

terça-feira, 20 de julho de 2021

Dos tempos que não havia...

"Nós podemos viver sem ela [arquitetura], e orar sem ela, mas não podemos rememorar sem ela"

Esta frase do teórico inglês John Ruskin está na lateral do nosso blog. Vejam ao lado!

Também a coloquei no fim do artigo da Revista Restauro sobre a obra de conservação e manutenção das fachadas do antigo prédio da Bolsa Oficial do Café Museu do Café - Santos - SP.

Esta é uma das frases que eu mais admiro na área da preservação pois ela sintetiza a importância da preservação do patrimônio edificado.  

Abaixo seguem imagens da última viagem que fiz para Ouro Preto-MG. Observem o quanto rememoramos em uma cidade histórica! E não é só a arquitetura, os objetos também são uns dos principais suportes de um tempo passado. Sem eles, como dizia Ruskin, não poderíamos rememorar.

Do tempo que não havia água encanada

Do tempo que câmara e cadeia dividiam o mesmo espaço

Do tempo que se fazia mineração com as próprias mãos

Do tempo que não havia redes sociais. Os bancos nas pontes!

Do tempo que não havia fechadura com sensor digital

Do tempo que não havia streaming - Teatro Municipal

Do tempo que não havia arranha-céus

Do tempo que não havia telefone.

Do tempo que não havia cartão de crédito

Do tempo que não havia gás encanado e nem de botijão.

*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 29 de junho de 2021

Frase Inspiradora:

 "[...] os bens patrimoniais não são apenas aqueles relacionados a funções de prestígio dentro da sociedade e que, em sua recuperação, tampouco é obrigatório um destino especialmente importante, de prestígio: uma vez que na comunidade não existem funções "nobres" ou "plebeias". Aceitando o atual conceito de cultura, que abarca a totalidade da produção de um grupo humano, dessacraliza-se a ideia de monumento como único representante da cultura e orienta-se a preservação do passado em direção a um serviço mais real à comunidade e com um maior grau de flexibilidade."


Marina Waisman

O Interior da História - pag.195


Postado por Cristiane Py