quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Segue a dica: Revista Restauro


No último sábado foi lançado, no Museu da Casa Brasileira em São Paulo - SP, o primeiro número impresso da Revista Restauro. Este periódico, disponível em plataforma digital desde 2016, é voltado para a publicação de artigos originais, entrevistas e resenhas que tenham como foco a preservação, conservação e restauro do patrimônio cultural.

Tendo como editoras Manoela Rossinetti Rufinoni, Iná Rosa da Silva e Vanessa Kraml, a revista mantém, pela plataforma digital, uma edição a cada 6 meses e é composta por seções distintas sendo elas: teorias; patrimônio e memória; intervenções; no canteiro; museus e acervos; saberes e fazeres; ciência e tecnologia; resenhas; pesquisa e projetos.

Na primeira edição impressa, encontramos artigos que falam: da carreira de Benedito Lima de Toledo; do programa Keeping It Modern da Getty Foundation e o projeto de conservação preventiva elaborado para o edifício Vila Nova Artigas; da obra de restauro da Capela Santa Luiza pertencente ao conjunto do Hospital Matarazzo e que teve sua fundação refeita para abrigar níveis de subsolo sob ela; da longa história do Museu Paulista (Museu do Ipiranga) que culminou em um concurso para projeto de restauro do museu; entrevista com o querido professor Jorge Eduardo Lucena Tinoco que conta para os leitores um pouco da sua vida profissional e sua paixão pelo patrimônio; entre outros.

Para aqueles que perderam o evento e a revista impressa, segue o site da plataforma digital. Não deixem de acessar pois o conteúdo é rico e informativo:



* imagens da autora
Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Restauro de pinturas parietais - exemplo do que NÃO deve ser seguido.

Semana passada estive no 1o CRI - Cartório de Registro de Imóveis - de São Paulo para pesquisa histórica e documental de um imóvel tombado que sofrerá uma intervenção de restauro. 

O 1o CRI fica na mesma rua da Igreja Menino Jesus e Santa Luiza, tombada pelo CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo - em 1995. Com sua obra concluída no início do séc. XX, a igreja patrimônio cultural do Estado de São Paulo, em estilo gótico, possui um interior ornado com belas pinturas.

Aproveitei minha ida ao centro de São Paulo e ao 1o CRI e fui então visitar a igreja. Ela é pequena pois foi construída como capela da chácara de Anna Maria de Almeida Lorena Matchaedo e só posteriormente passou para Cúria Metropolitana.

O que me chamou atenção no interior da igreja foram as pinturas artísticas internas que sofreram intervenção sem seguir as diretrizes mínimas estabelecidas pela disciplina do restauro e pelas cartas patrimoniais.

Vejam as imagens abaixo:

Parte da pintura parietal que sofreu intervenção
Parte da pintura parietal que sofreu intervenção
Pintura original -  descoberta após remoção de camadas de tinta
Pintura executada sobre a pintura original
No processo de reintegração cromática de uma pintura parietal se faz importante criar um diferencial entre a pintura original e a restaurada, pois a restauração, segundo Brandi, não deve cometer nem um falso artístico e nem um falso histórico como também não deve apagar os traços da passagem do tempo.

No post Restauro de pinturas parietais - Igreja de São Domingos - Salvador, acompanhamos como deve ser a técnica baseada na Teoria da Restauração de Cesare Brandi. Vale a pena o leitor dar uma olhada e comparar as duas intervenções.

Não só a técnica é importante. A tinta a ser usada no restauro é outro fator determinante e deve ser escolhida de acordo com testes laboratoriais. No caso de uma pintura artística parietal do início do séc. XX, tintas acrílicas podem criar patologias que causarão mais danos na obra de arte do que se ela permanecesse sem intervenção alguma.

*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Frase Inspiradora:

"O campo da preservação e do restauro, como qualquer campo disciplinar intimamente relacionado às transformações da sociedade, é dinâmico, e seus debates estão em contínuo desenvolvimento e aprofundamento. Isso não pode significar, contudo, que as aquisições teóricas amplamente analisadas em séculos de discussões devam ser "reinventadas" a cada novo desafio."


Manoela Rossinetti Rufinoni
Preservação e Restauro Urbano: intervenções em sítios históricos industriais
pag. 321

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Cobertura Monastério de San Juan - Um projeto de restauro.

Essa semana tivemos mais uma perda de um patrimônio cultural. A igreja de Santa Rita de Cássia na cidade de Diamantina-MG foi atingida por um incêndio e, similar aos sinistros no Museu da Língua Portuguesa-SP, no Museu Nacional-RJ e na Catedral de Notre-Dame de Paris-FR, o telhado e a estrutura de madeira foram totalmente destruídos restando apenas as ruínas das paredes.

Após a tragédia, como lidar com um patrimônio que, agora, se encontra em ruínas?

Antes de mais nada é importante fazer estruturas emergenciais para manter estável o que restou após o incêndio e elaborar um projeto de restauro com profissionais habilitados. 

Mas qual é o melhor caminho para desenvolver um projeto de restauro para tragédias como essa? 

Já discutimos esse tema no post Uma questão em debate. Podemos reconstruir o telhado da capela seguindo seu desenho "original", deixar suas ruínas como testemunho do ocorrido ou fazer uma intervenção contemporânea para reabilitar o uso da igreja sem criar um falso histórico.

A reconstrução de um patrimônio cultural ou parte dele na sua forma "original" já é, há mais de um século, condenada por estudiosos e pelas cartas patrimoniais mas podemos encontrar algumas exceções aonde a reconstrução mimética pós tragédia foi realizada como uma forma de resgate de identidades perdidas ou por questões sociais e afetivas da comunidade tão discutidas atualmente.

Por isso que hoje escolhi escrever sobre o restauro da Igreja do Monastério de San Juan localizado na cidade de Burgos, Espanha. Uma boa intervenção para inspirar projetos futuros.

Esse projeto, idealizado pelo escritório BSA, consiste em uma cobertura para a ruína da igreja do monastério com o intuito não só de proteger os restos arquitetônicos como também de criar um novo espaço aonde se podem celebrar atividades culturais. Reparem que a nova cobertura se prolonga além das ruínas e que sua estrutura é totalmente independente das estruturas pré existentes. Ou seja, um projeto que vê, em primeiro lugar, o patrimônio histórico. Apesar da nova cobertura ser uma estrutura com técnicas e desenhos contemporâneos, ela dialoga com o pré existente sem que as ruínas percam o seu protagonismo.











Igreja Santa Rita de Cássia, antes e pós incêndio.


Imagens da web - acesso em 07/10/2019
Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O selfie e o patrimônio cultural.

Ficaria muito longo falar neste post sobre o surgimento do monumento histórico. Vamos então, de forma sucinta, fazer uma rápida cronologia para vocês, leitores, entenderem minha reflexão aqui proposta sobre a relação do selfie com o patrimônio cultural.

O conceito de monumento histórico surgiu com o pensamento humanista no séc. XV, época do renascimento. Esse novo olhar sobre monumentos e antiguidades fez surgir os antiquários que colecionavam, em seus gabinetes, objetos do passado. Mas como colecionar arquitetura? Neste caso haviam 2 opções: colecionar fragmentos ou gravuras desenhadas por arquitetos in loco. Devemos lembrar que, nesta época,  estávamos alguns séculos antes do surgimento e popularização da fotografia!

Essas gravuras, que chamamos de vedutes,  deram origem aos primeiros guias turísticos da história e valorizaram e popularizaram, no séc. XIX, o "grande passeio", ou seja, as longas viagens aos lugares históricos. Dessas viagens surgiram os diários aonde o viajante descrevia todas as suas experiências e aventuras do "grande passeio". Muitos desses diários foram publicados atraindo, então, cada vez mais interessados em visitar os lugares históricos.

No séc. XX presenciamos um desenvolvimento assombroso. Surgiram não só a fotografia mas principalmente novos meios de transporte, como a ferrovia, os transatlânticos e o avião. Com todo esse crescimento o "grande passeio" se popularizou. Foi nessa época que surgiram os souvenires para atender ao desejo do visitante em levar consigo uma lembrança de viagem. Os souvenires, de certa forma, tentavam ter a mesma função que tinham os fragmentos e as gravuras da época do renascimento, que era a de resgatar memórias de um lugar visitado.

Os souvenires por décadas ocuparam o primeiro lugar como suporte de lembranças de viagem. Quem nunca comprou um souvenir, seja ele um chaveiro, um copo, um globo de neve, uma miniatura, um cartão postal ou utensílios para o lar? Mas no séc. XXI, na Era do Acesso, aonde os bens materiais perderam espaço para os bens intangíveis, eu acredito que o souvenir será daqui a poucas décadas um objeto realmente histórico. Na minha percepção, o selfie postado nas redes sociais está sendo, neste século, o novo suporte de memória da visita a um monumento histórico.

E para ilustrar esse post segue acima a imagem de um dos meus selfies favoritos. A turma do CECI 2015 tendo ao fundo o teto da Igreja Nossa Senhora das Correntes na cidade de Penedo-AL.

* imagem da autora

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Frase inspiradora:

"A determinação, por exemplo, dos novos usos para os edifícios obsoletos deve ser feita levando em conta suas características, para que a nova utilização seja nela instalada de modo a preservar, respeitar, valorizar e não deturpar seus principais elementos caracterizadores, fazendo uso dos instrumentos teóricos oferecidos pela restauração."

Beatriz Mugayar Kuhl
Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização
Problemas teóricos de restauro
pag. 138

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A Casa Amarela da Vila Romana na Jornada do Patrimônio 2019

Neste fim de semana aconteceu em São Paulo a Jornada do Patrimônio e como fazemos desde 2017 segue um post falando de uma das atrações.

Ano passado falamos sobre o roteiro de memória no bairro do Pacaembu, em que fomos proponentes, e em 2017 falamos da oficina de limpeza de fachadas históricas no Teatro Municipal.

Esse ano optamos em falar sobre um imóvel histórico.

Vale lembrar que a Jornada do Patrimônio em São Paulo tem programações que atendem a todas as regiões da cidade e programas que variam de: palestras, oficinas, roteiros de memória, imóveis históricos, apresentações artísticas e cortejos de memória. Para quem perdeu este ano fica a dica para o ano que vem!

O imóvel que visitamos e falaremos hoje é a Casa Amarela da Vila Romana.

Construída em 1921 pelo bisavô da atual proprietária, Janice,  este conjunto de duas casas conjugadas foi construído antes do bairro ser loteado, aonde antes era um sítio e com a finalidade de alugar para italianos recém chegados ao Brasil.

Logo na entrada podemos ver a fachada restaurada com pintura a base de cal e na testeira o ano da construção. A casa da direita (para quem olha a partir da rua) é a atual morada da Janice e não está aberta para visitação. Essa primeira casa sofreu alterações para se adaptar aos novos modos de vida. Já a casa da esquerda mantém a distribuição interna dos espaços conforme sua construção em 1921. Reparem pelas fotos que não há corredor separando os cômodos o que força as pessoas a cruzarem um espaço para chegar em outro. Esse tipo de distribuição dos ambientes é conhecido como casa vagão. Atualmente a Janice mantém neste espaço uma galeria e desenvolve trabalhos com os antigos moradores do bairro que moram lá desde a época das grandes indústrias e fábricas. Vale lembrar que a Vila Romana era no passado uma região fabril e que apenas há poucas décadas mudou seu perfil para um bairro residencial intensificando sua verticalização.

Outro fato interessante é que o conjunto das duas casas se encontra hoje em processo de tombamento no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo - CONPRESP com pedido feito pela proprietária do imóvel, mostrando que a valorização do Patrimônio Cultural Edificado pode e deve ser feito também por pessoas que prezam pelas memórias de um tempo passado.

Casa Amarela da Vila Romana
Casa Amarela da Vila Romana
Casa Amarela da Vila Romana - reparem que é um conjunto de 2 casas independentes

Data do ano da construção e os números das duas moradas
porta de acesso  - original de 1921
Esquadria de madeira -  original de 1921
Distribuição dos ambientes sem corredor - tipologia conhecida como casa vagão

Distribuição dos ambientes sem corredor - tipologia conhecida como casa vagão
um dos trabalhos expostos na galeria realizado por antigas moradoras do bairro.
Texturas de paredes

Nesta foto eu com Janice, proprietária  que solicitou o  tombamento do imóvel junto ao CONPRESP. Preocupação em manter as memórias de um bairro aonde a especulação imobiliária vem atuando mudando o contexto da região.

*imagens da autora
*para conhecer a Casa Amarele acesse: https://www.janicedepiero.art.br


Postado por Cristiane Py