segunda-feira, 25 de maio de 2020

O Navio de Teseu sobre o olhar dos pensadores da restauração

Durante o curso de Gestão de Restauro do CECI 2015 foi aberto um forum de discussão sobre a lenda grega do Navio de Teseu. Essa lenda há séculos gera discussões filosóficas por causa do seu paradoxo. 

Vamos tentar adaptar e resumir a história  sobre o ponto de vista da restauração.

O navio de Teseu sempre que chegava ao porto sofria manutenção tendo algumas peças substituídas. As peças antigas, ao invés de serem descartadas, eram preservadas. Com o passar dos anos todas as peças já tinham sido trocadas. Foi então que construiu-se, com as peças antigas, um outro navio passando então a existir dois navios. O navio reconstruído das peças antigas e o navio que teve as peças trocadas.

Foram feitas então as seguintes perguntas no Fórum:

1 - Qual dos dois navios é o navio de Teseu? O reconstruído ou o novo?

2 - Qual é o navio autêntico?

Para responder essas perguntas fiz uma rápida análise considerando o olhar de alguns pensadores da restauração. Compartilho aqui com vocês.

Para Ruskinnavio reconstruído dos fragmentos e pregos deteriorados seria o navio verdadeiro de Teseu. Segundo Ruskin:

“... não se importe com a má aparência dos reforços: é melhor uma muleta do que um membro perdido [...]. Seu dia fatal por fim chegará; mas que chegue declarada e abertamente, e que nenhum substituto desonroso e falso prive o monumento das honras fúnebres da memória”.

Mas analisando pela teoria antagônica de Le Duc, o navio verdadeiro de Teseu seria o novo. Para o arquiteto francês a importância de manter o uso do patrimônio era uma das principais premissas da sua teoria. Vejam abaixo.

“...Nas restaurações, há uma condição dominante que se deve ter sempre em mente. É a de substituir toda parte retirada somente por materiais melhores e por meios mais eficazes ou mais perfeitos.”

Caminhando no tempo chegamos em Alois Riegl. Esse estudioso austríaco nomeou valores para o patrimônio. São eles:

- Valor de memória (valor de antiguidade e valor histórico) 
- Valor de atualidade (valor de uso e valor de novidade) 

Vejam que os valores nomeados por Riegl não estão presentes em apenas um navio, mas nos dois, entãopara Riegl, os dois navios são importantes para a análise da questão. O que poderá determinar a escolha de qual navio é autêntico será o olhar no momento da análise respeitando o Kunstwollen de cada época. Seguindo a teoria de Riegl nenhum dos navios poderiam ser descartados pois a opção escolhida poderá não ser a mesma nas gerações futuras.

Já nas teorias contemporâneas e analisando pelo olhar de Muñoz Viñas temos:

“Uma boa restauração (intervenção) é a que satisfaz o maior número de sensibilidades.”

Seguindo esse olhar nos fazemos as perguntas:

Qual navio satisfaz o maior número de sensibilidades?
O reconstruído satisfaz as sensibilidades daqueles que preservaram as peças e reconstruíram o barco, daqueles que não mais navegam?
O novo satisfaz as sensibilidades daqueles que continuam ou sonham em navegar?
Qual sensibilidade pesa mais na balança?

Depois dessa breve análise cheguei a seguinte conclusão:

O navio reconstruído dos fragmentos simboliza as aventuras que Teseu enfrentou mas o novo navio permite que o herói continue sua saga. Os dois navios são os verdadeiros. 

Mais interessante ainda é que com Teseu continuando suas viagens, o navio continuará tendo peças trocadas e outros navios poderão ser reconstruídos. Teremos, além do navio que navega, mais um, dois , três ... navios reconstruídos, todos eles representando determinados momentos da história de Teseu.

Os navios ficam fora de contexto se os analisarmos separadamente, pois um complementa o outro. Um navio apenas não conta a história completa do Mito. Precisamos de todos os navios. 

Respondendo então às questões:

1- Os dois navios pertencem a Teseu. O navio da memória e o navio do herói.
2- A leitura dos dois navios juntos é que dá a autenticidade à figura simbólica do mito. Se descartamos um, indiferente de qual, corremos o risco de perder a história do mito.

* imagens da web - acesso em maio 2020

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Yang's School Area - Um projeto de restauro

O vilarejo rural Shangping, localizado na província de Fujian-China e conhecido como aldeia literária cercada por água,  ainda segue os conceitos tradicionais da cultura chinesa. 

Com um amplo projeto de preservação, desenvolvido pelo escritório de arquitetura 3andwich Design / He Wei Studio que englobou não só a restauração de diversas edificações abandonadas de uso agrícola mas também o desenvolvimento de um plano de gestão, esse vilarejo, patrimônio cultural, é hoje um moderno espaço público que atende moradores e visitantes.

A Yang's School Area faz parte desse amplo projeto. Localizada no encontro de dois curso d'agua e em um antigo estábulo/depósito, essa "biblioteca/livraria"  compartilha o saber do vilarejo com os visitantes e o saber de fora com as crianças locais.

O projeto de restauro e revitalização tirou partido da antiga edificação, antes destinada a estábulo e depósito, para criar espaços lúdicos de leitura. 

Abaixo algumas imagens desse projeto e links com mais informações.







Imagens da web - acesso em maio de 2020
Links: 

Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Frase Inspiradora:

"Saber ler a gramática da Arquitetura, o conteúdo dos sistemas, técnicas, materiais construtivos e as expressões do tempo é atributo fundamental para garantir a autenticidade e integridade da edificação antiga."

Modelagem de composições de preços para a conservação e o restauro
Curso Gestão de Restauro do Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada - CECI
Aula on line ministrada pelo Prof. Jorge Eduardo Lucena Tinoco pela plataforma zoom em 05/05/2020

Postado por Cristiane Py