segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Roteiro de memória - O Bairro do Pacaembu na Jornada do Patrimônio 2018

Seguindo os mesmos moldes de eventos que também acontecem em cidades como Paris, Nova Iorque, Lisboa e Porto, a Jornada do Patrimônio em São Paulo chegou na sua 4o edição e, neste ano, contou com mais de 300 atividades que incluíram: palestras, cursos, visitas em imóveis, roteiros de memória, lançamentos de livros e oficinas.

Esse ano participamos da Jornada como proponentes e fizemos um roteiro de memória pelo Bairro do Pacaembu.

Vista do Bairro do Pacaembu. Ao fundo, aonde vemos os prédios altos, está o bairro de Higienópolis.

O loteamento do bairro do Pacaembu, realizado em 1925, trouxe da Inglaterra o conceito de cidade-jardim e tirou proveito de um terreno com topografia difícil em uma região que, apesar da proximidade com o centro da cidade, era ocupada por chácaras de chá.

O projeto do loteamento da Cia. City delineou as ruas do bairro pelas curvas de níveis e estabeleceu regras de ocupação para os lotes dentre elas: 50% de ocupação do terreno, 100% de área construída e recuos obrigatórios (frontais, laterais e de fundos).

Apesar do bairro possuir vários imóveis tombados, o foco do roteiro não visou esse olhar. A idéia foi apresentar o bairro do Pacaembu que, ao ser tombado pelo CONDEPHAAT em 1991, preserva as idéias de loteamento da Cia City, ou seja, o atual traçado urbano, as áreas destinadas a vegetação arbórea e os padrões de ocupação dos lotes.

O roteiro percorreu ruas internas e de uso residencial bem como corredores de serviços.

Ponto inicial do roteiro. Praça Barry Parker. A praça recebe o nome do arquiteto  responsável pelo projeto do bairro.

Os imóveis antigos ainda preservam a ideia dos bairros jardins, aonde a vegetação do lote se mistura com a vegetação das ruas.


Gradis baixos permitem que os jardins das casas sejam integrados à paisagem urbana.

Vários imóveis novos ou reformados constroem muros entre a rua e o jardim do recuo frontal. Perde-se com isso uma das principais características do bairro.
A topografia do bairro criou tipologias diferentes nas construções. Neste caso, de lote em terreno  íngreme, o nível da rua é considerado subsolo, permitindo o uso como garagem. Vejam que o andar superior (o térreo) respeita o recuo frontal de 5,00m
Nesta foto vemos a imagem dos fundos do lote. A casa em questão dá frente para a rua de cima em uma cota bem superior à rua de baixo. Muros de arrimo são comuns no bairro



Parada em frente ao Asilo Sampaio Viana, imóvel tombado pelo CONDEPHAAT em 1998. Amplo terreno com uma construção atribuída ao arquiteto Ramos de Azevedo. O Asilo, atualmente pertencente à Fundação Faculdade de Medicina, já se localizava na região antes da implantação do bairro.
Esquina aonde podemos observar as ruas e curvas de níveis do terreno.

Estádio do Pacaembu, tombado em 1994 pelo CONDEPHAAT

Encontro da Av Pacaembu com a Av Arnolfo de Azevedo (avenidas que são corredores de serviço). Um dos pontos mais baixos do bairro. Aqui é possível observar a topografia íngreme. Vejam que os imóveis não residenciais também respeitam as regras do loteamento.

Fim do roteiro! Os participantes não conheciam o bairro ou só tinham passado de carro. O roteiro permitiu a eles conhecer um pedacinho da história da nossa cidade.
Trajeto do roteiro.
Cartaz oficial do evento.
*imagens da autora
*para mais informações sobre a Jornada do Patrimônio acesse: http://www.jornadadopatrimonio.prefeitura.sp.gov.br/2018/
* para mais informações sobre o Bairro do Pacaembu acesse:

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Antigas edificações industrias, hoje revertidas em espaços de arte.

No último post falamos da Centrale Montemartini, museu localizado em Roma e que ocupa a antiga termoelétrica da cidade edificada nos anos 1910.

Essa semana, por coincidência, li o livro O Complexo arte-arquitetura do Hal Foster onde temos um capítulo que o autor disserta sobre os museus minimalistas (antigos espaços industriais que foram convertidos em novos espaços de arte).

Vale relembrar que a arte minimalista desencadeou uma nova escala de arte que não mais se encaixava nos tradicionais salões de arte ou nos cubos brancos modernistas. Por essa questão, fábricas, armazéns e antigos lofts foram gradativamente ocupados por galerias.

Essa conversão de antigas fábricas e armazéns em espaços de arte se torna mais interessante quando observamos a tensa reciprocidade entre a arte e a arquitetura. Não só o tamanho dos antigos espaços fabris se encaixavam na nova escala de arte como também a unidade modular e serial da construção industrial tornava o espaço parte integrante das exposições da arte minimalista, da arte pop, da arte conceitual, do site specific, do grupo Fluxus e da arte contemporânea, todos movimentos de arte que usam grandes instalações em suas obras.

Abaixo veremos imagens de edificações industriais que foram revertidas em espaços de arte citadas por Foster em seu livro.
 Dia Art Foundation, NY - Dia Beacon: Fachada - edificação industrial de 1929
Dia Beacon: Obra de François Morellet

Dia Beacon: Obra de Louse Bourgeois
Dia Beacon: Obra de Michael Heizer
Andy Warhol Museum, Pittsburgh: Fachada - edificação industrial de 1911
Andy Warhol Museum 

Andy Warhol Museum
Tate Modern, Londres - Central elétrica construída em 1947/1963
Tate Modern

*imagens da web - acesso em julho 2018
**Para mais informações sobre os museus citados neste post acesse: 


Este post usou como referência o livro O Complexo arte-arquitetura de Hal Foster, trad. Célia Euvaldo, São Paulo: Ubu Editora, 2017

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 10 de julho de 2018

Centrale Montemartini - o passado antigo e o passado recente

Hoje irei apresentar um museu muito interessante mas conhecido por poucas pessoas,  apesar dele se localizar em uma das cidades mais visitadas do mundo, a cidade eterna - Roma. 

Quando comecei meus estudos em restauro e preservação, em um curso livre do Museu de Arte de São Paulo - MASP, este projeto foi apresentado aos alunos, mas só esse ano tive oportunidade de conhecer pessoalmente.

A Centrale Montemartini é um museu instalado na antiga termoelétrica da cidade, em uma edificação de 1912. Nos anos 90 a cidade de Roma precisou de um espaço provisório para guardar parte do acervo dos Museus Capitolinos que passariam por reformas, e a exposição, a principio provisória, se tornou permanente com um acervo de peças do império romano e grego que foram encontradas em escavações para obra do metrô de Roma. 

O espaço impressiona quando encontramos, no mesmo local, o passado antigo da era grego-romana e o passado recente da era industrial. No andar inferior também temos peças do império egípcio. 

Aconselho aos visitantes observarem não só as esculturas antigas e os maquinários mas também as técnicas construtivas da edificação. O trabalho de escaiola, também usado aqui no Brasil para revestimento de paredes e colunas, impressiona!










Detalhes da edificação: piso em mosaico, escaiola nas paredes e ferro fundido das luminárias
escaiola, técnica que imitava mármore, também utilizada no Brasil

Detalhe da técnica de escaiola






** imagens da autora
*** para mais detalhes sobre o museu Centrale Montemartini acesse www.centralemontemartini.org 

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 19 de junho de 2018

Frase inspiradora:

"O dilema das proteções à arquitetura moderna adveio das dificuldades de considerá-la passado. Um dos pontos nodais é o aparente paradoxo de se preservar uma arquitetura postulada para romper com as tradições. No entanto, tratá-la como patrimônio não significa decretá-la ultrapassada. Significa, ao contrário, entendê-la como parte viva e importante de nossa cultura contemporânea e enfrentar o desafio de compreender a relação entre os conceitos originais que a nortearam e sua utilização no presente"

Flávia Brito do Nascimento
Blocos de Memórias. 
Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural.
pag. 440

Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Forte Santa Cruz de Itamaracá - Obra de restauro finalizada

Em 2016 fizemos um post sobre a visita técnica que a turma do CECI realizou, no ano de 2015, no canteiro de obras do Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Após 2 anos, eis que eu vejo, na rede social, fotos da obra concluida.

Quem postou as fotos foi minha colega do curso de especialização do CECI e arquiteta do IPHAN/PE  Márcia Hazin.

Infelizmente o Forte ainda não está aberto para o público, mas compartilho com vcs as fotos da obra finalizada.

*imagens Márcia Hazin - arquiteta IPHAN/PE

Postado por Cristiane Py


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Segue a dica: Leonardo Da Vinci de Walter Isaacson

Em posts anteriores, já falamos sobre os valores que transformam um bem em patrimônio cultural. Sabemos que eles vão além do histórico e estético, abrangendo também aspectos cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos, éticos e simbólicos. Para compreendê-los plenamente, é essencial não apenas conhecer a história, mas também situar o bem em sua época, acompanhar sua trajetória ao longo do tempo e entender as particularidades que conferem seus valores únicos.

Diversos livros de autores renomados exploram essas questões e nos ajudam a aprofundar essa compreensão. Um exemplo clássico é História da Arte como História da Cidade, de G.C. Argan. Apesar de ser uma leitura desafiadora — li três vezes, fiz fichamentos e ainda sinto a necessidade de revisitá-lo —, a obra oferece uma visão rica e detalhada sobre como a arte se relaciona com a evolução das cidades.

Por outro lado, Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, apresenta uma leitura mais leve e envolvente. O autor, também responsável pela biografia de Steve Jobs, narra com maestria a vida de Leonardo, desde o nascimento até sua morte, oferecendo um retrato completo do artista renascentista.

O grande mérito do livro está no olhar humano e acessível que Isaacson lança sobre Leonardo. Ele nos ajuda a entender por que o artista é considerado um dos maiores do Renascimento (se não o maior) e por que obras como Mona Lisa, A Última Ceia e São João Batista são tidas como verdadeiras obras-primas.

Além disso, o livro mergulha na rotina de trabalho de Leonardo, seus sonhos, expectativas e vida pessoal, ao mesmo tempo que apresenta um retrato fascinante do contexto renascentista. A leitura me inspirou a refletir sobre como a invenção da imprensa naquela época democratizou o conhecimento, algo que considero análogo ao impacto da internet em nossos tempos.

Fica aqui a dica de leitura! E, claro, vou adorar saber suas impressões depois que mergulhar nessas páginas.

*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Restauro Urbano - O projeto do SESC 24 de maio

No post A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte III,  falamos sobre o projeto Carré d'Art, Museu de Arte Contemporânea, de autoria do escritório Foster+Partners. Localizado na cidade de Nimes na França, o museu, inserido em um tecido e ambiência histórica, respeitou e dialogou com o seu entorno demonstrando como uma arquitetura contemporânea pode integrar-se ao sítio histórico sem abrir mão da sua atualidade.

Mas não precisamos ir tão longe para encontrarmos bons exemplos de projetos contemporâneos  inseridos em tecidos urbanos históricos. A nova unidade do SESC - Serviço Social do Comércio, localizada em uma esquina na rua 24 de maio no centro antigo de São Paulo, é, a meu ver, um dos melhores exemplos de restauro urbano.

Vale lembrar que essa área do Centro Histórico de São Paulo, além de ser exclusiva aos pedestres, é marcada por conter várias galerias que cruzam os quarteirões e que se misturam com o tecido urbano. Podemos citar a tão famosa Galeria Olido,  a Galeria Presidente, a Galeria P. Monteiro, o Boulevard do Centro e a conhecida Galeria do Rock, todas elas no entorno próximo ao SESC.

Entrada da Galeria Olido pela Av. São João
Galeria Presidente, localizada em frente ao SESC 
Vista do SESC a partir da Galeria Presidente
Galeria R. Monteiro localizada ao lado do SESC
Galeria do Rock com acesso pela Av. São João e rua 24 de maio
Boulevard do Centro, também no entorno do SESC


O projeto, de autoria do escritório Paulo Mendes da Rocha + MMBB Arquitetos, consistiu em uma grande reforma com aumento de área em uma edificação, sem valores culturais, que antes era ocupada por uma loja de magazine. A nova arquitetura tirou partido e resgatou os valores das antigas galerias, fazendo o SESC não só se abrir e convidar São Paulo para adentrar, como também ser um ponto de partida para a revitalização do abandonado Centro Histórico de São Paulo.


A esquina agora ocupada com a nova unidade do SESC
O andar térreo aberto para a cidade. Resgatando os valores das antigas galerias
Rampas dão acesso aos andares superiores fazendo a circulação aberta do térreo prolongar-se por todo o conjunto
Espaços livres dos andares superiores. Áreas de descompressão no agitado Centro Paulistano
Os demais pisos também abrem-se para a cidade.
Sistemas de sprinklers. Alternativa para o combate contra incêndios nas rampas não enclausuradas. 
Áreas abertas em todo o conjunto

* imagens da autora - abril de 2018
Postado por Cristiane Py