sexta-feira, 19 de maio de 2017

ICOMOS Brasil - Simpósio Científico 2017


Semana passada aconteceu em Belo Horizonte-MG o Simpósio Científico do ICOMOS-BRASIL.

O Conselho Internacional de Monumentos e Sítios -  ICOMOS - "é uma organização não governamental associada à UNESCO com a missão de promover a conservação, a proteção, o uso e a valorização de monumentos, centros e sítios. O ICOMOS é o organismo consultor do Comitê Mundial para a Implementação da Convenção do Patrimônio Mundial da UNESCO."


Os temas principais discutidos no simpósio através de palestras, mesas redondas e conferências, foram:


- Reconstrução pós desastre: Perspectivas.
- Patrimônio Cultural no Brasil hoje.
- Reconstrução e musealização do território.

e dentro desses temas vários assuntos foram abordados. Entre eles:

- O caso do subdistrito de Bento Rodrigues-MG destruído pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco em 2015. A declaração de significância está sendo preparada e uma nova cidade está sendo planejada. As ruínas de Bento Rodrigues estuda-se ser mantida, similar a cidade de Oradour-Sur-Glane citada nesse blog no post Uma questão em debate de 29 de agosto de 2016.

- Escudo Azul -"O Escudo Azul é um organismo internacional que funciona como uma espécie de Cruz Vermelha, que congrega pessoas para trabalharem voluntariamente quando existe uma situação de risco ao patrimônio cultural. A ação desse organismo se concretiza na elaboração de planos de emergência e de resgate, na avaliação de riscos e em ações de prevenção implementadas dentro de cada instituição que faz parte do Comitê."

- Turismo Cultural

- Teoria contemporânea da restauração - onde discutiu-se: a mudança de paradigma; a questão do valor simbólico dos bens culturais com ênfase nos sujeitos e não nos objetos; a Carta de Burra; a superação do fetiche material e a importância do sentimento espiritual. Durante os debates foi exposto que a reconstrução não é vetada mas que seu significado é alterado.

- Arquitetura vernácula

- Carta de Juiz de Fora

- Carta de São Paulo

- Museu do Território em Camboja, localizado próximo ao Templo Hindu de Preah Vihear. Um museu que envolveu a população local, que privilegiou a informação visual (em função do alto índice de analfabetismo da região), que valorizou a ligação entre o templo e a paisagem e que resgatou as técnicas tradicionais.

- Patrimônio militar no Brasil. Patrimônio que foi candidato em 2015 (como conjunto de fortificações) para Patrimônio da Humanidade;  a importância de todo o processo para a candidatura; a gestão compartilhada com participação da população e a acessibilidade.

Para concluir posso dizer que foram 3 dias de palestras, conferências e debates que ajudaram a enriquecer o conhecimento de todos os participantes na questão do Patrimônio Cultural.


*imagens da autora e da web - acesso em 05-2017

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Memórias Paulistanas


Na última quarta-feira fui almoçar com uma colega arquiteta na região da Vila Mariana em São Paulo. No trajeto ao restaurante pegamos um atalho e eis que eu me deparo com esse detalhe no piso.

O piso de caquinhos de cerâmica é muito conhecido dos paulistanos mas com a verticalização das antigas vilas residenciais esse patrimônio está se perdendo.

A história dos caquinhos já é bem conhecida dos moradores de São Paulo mas vamos resumir para aqueles que não compartilham dessa memória.

Por volta da década de 1940/50 a cidade de São Paulo, em ampla expansão, possuía duas grandes indústrias de cerâmica, ladrilhos e telhas sendo uma delas a Cerâmica São Caetano. Essas indústrias produziam lajotas cerâmicas de 20x20cm na cor vermelha (a mais popular e menos custosa), preta e amarela. Durante a produção das lajotas ocorriam quebras e os "caquinhos" eram descartados pelas indústrias. Eis que um dia um dos funcionários da empresa, que estava a reformar sua casa e não tinha dinheiro suficiente para adquirir as lajotas de 20x20cm, teve a idéia de usar os "caquinhos". O refugo foi prontamente cedido pela empresa ao seu funcionário. 

A partir daí, o reaproveitamento dos caquinhos foi um sucesso a ponto de faltar o refugo e sobrarem as peças inteiras! Acreditem, dizem que a indústria para atender a demanda passou a quebrar peças novas e o custo dos caquinhos chegou a ficar maior que o da cerâmica inteira.

Os "caquinhos" foram usados nos pisos e revestimentos de paredes em residências e pontos comerciais até início da década de 1970 mas, como dissemos acima, a verticalização da cidade aos poucos foi acabando não só com a técnica como também  com o registro.

O interessante neste vestígio que cruzou o meu caminho são os detalhes, que imagino ser de latão, para registrar a logomarca do antigo ponto comercial, hoje um estacionamento.

*imagens da autora
Postado por Cristiane Py

terça-feira, 28 de março de 2017

Segue a dica: Blocos de Memórias - Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural


Na última quarta-feira no dia 22-03-2017, aconteceu o lançamento do livro Bloco de Memórias - Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural da professora Flávia Brito do Nascimento.

O livro, dividido em três partes, debate:

Parte 01 - Moderno é Patrimônio
Parte 02 - Habitação e Patrimônio
Parte 03 - Habitar o Patrimônio Moderno.

e na contra capa do livro temos:

"Este livro estuda a preservação dos conjuntos residenciais modernos construídos no Brasil entre 1930 e 1964, pensando-os do ponto de vista do patrimônio cultural. Esses conjuntos, destinados à habitação social, são exemplares importantes da história da arquitetura moderna brasileira, porém tem sua preservação seriamente ameaçada. [...]"

Como aluna especial em duas disciplinas da pós-graduação da FAUUSP ministradas pela Profa. Flávia tive oportunidade de desconstruir uma visão estabelecida pela historiografia oficial e ter um olhar mais crítico e voltado para o social nas questões do patrimônio cultural e arquitetura moderna.

Fica aqui a dica para aqueles que desejam se aprofundar no tema!!!


*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Frase inspiradora:

"A relação entre uma nova intervenção arquitetônica e a arquitetura já existente é um fenômeno que muda de acordo com os valores culturais atribuídos tanto ao significado da arquitetura histórica como às intenções da nova intervenção.

Daí se conclui que é um grande erro pensar que se possa formular uma doutrina permanente ou, pior, uma definição científica da intervenção arquitetônica. Ao contrário, apenas compreendendo caso à caso os conceitos que fundamentam a ação é possível distinguir as características que essas relações assumiram no decorrer do tempo. O projeto de uma nova obra de arquitetura não somente se aproxima fisicamente da que já existe, estabelecendo com ela uma relação visual e espacial, como cria uma interpretação genuína do material histórico com o qual tem de lidar. De modo que esse material é objeto de uma verdadeira interpretação que explícita ou implicitamente se associa com a nova intervenção em toda a sua importância."

Ignasi de Solà-Morales Rubió

* trecho do texto Do contraste à analogia: novos desdobramentos do conceito de intervenção arquitetônica em Uma Nova Agenda para a Arquitetura, organizadora Kate Nesbitt, pag. 254


postado por Cristiane Py

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Ponte Q`eswachaka - Uma ampliação dos conceitos de Patrimônio Cultural

Em 1994 no Japão foi realizada a Conferência de Nara. Concebida seguindo o espírito da Carta de Veneza de 1964, esta conferência foi uma resposta à globalização, alargando os conceitos referentes ao Patrimônio Cultural.

"Todos os julgamentos sobre atribuição de valores conferidos às características culturais de um bem, assim como a credibilidade das pesquisas realizadas, podem diferir de cultura para cultura, e mesmo dentro de uma mesma cultura, não sendo, portanto, possível basear os julgamentos de valor e autenticidade em critérios fixos. Ao contrário, o respeito devido a todas as culturas exige que as características de um determinado patrimônio sejam considerados e julgados nos contextos culturais aos quais pertençam."

A conferência desafiou o pensamento tradicional e eurocêntrico a respeito do reconhecimento, conservação e restauração do patrimônio cultural. Voltada para a discussão da autenticidade de um bem cultural, ela reconheceu que a diversidade cultural não permite estabelecer critérios fixos para atribuição de valor, devendo ser levado sempre em conta os contextos culturais.

Ponte Inca Q`eswachaka
Na imagem acima, vemos a Ponte Inca Q`eswachaka em Cuzco no Peru. 

Esta ponte de corda torcida é reconstruída à cada 2 anos desde o Império Inca pelas comunidades locais e faz parte do sistema viário andino Qhapaq Ñan (Caminho Inca) reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2014. 

O ritual de sua reconstrução recebeu em 2012 menção honrosa do Prêmio Internacional Domus Restauro e Conservação Fassa Bartolo.

O reconhecimento por parte da UNESCO e a menção honrosa do prêmio italiano de restauro foram resultados da ampliação dos conceitos de Patrimônio Cultural discutidos na Conferência de Nara de 1994.






*imagens da WEB
** para mais informações sobre a ponte Q`eswachaka acesse: 

postado por Cristiane Py

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Muro de John Lennon - Arte efêmera e Patrimônio Cultural





As imagens acima são do Muro de John Lennon localizado em Praga na República Tcheca. Usado como suporte para grafites políticos e letras de Rock (que eram proibidos pelo governo) ele se tornou um marco da juventude da cidade nos anos 1960, 70 e 80.

O interessante desse muro é que apesar das várias tentativas de mantê-lo "limpo" com várias demãos de tinta, ele sempre voltava a ser usado como suporte dos grafites e manifestações.

O proprietário atual do muro desistiu de tentar mantê-lo "limpo" e o local virou ponto de peregrinação principalmente dos jovens do Leste Europeu.

Vemos nas fotos acima um grupo comemorando a formatura e deixando o seu registro no muro.

Como um representante da arte efêmera, ou seja, uma arte que não tem um caráter de permanência, não são os grafites e pichações que tornam o Muro de John Lennon um representante do Patrimônio Cultural de Praga, mas sim o local como um marco político que diariamente vai de transformando com novos desenhos e registros.




* imagens da autora

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Ruínas - A Sublimidade Parasitária do Pitoresco.


John Ruskin dizia:

"... o pitoresco é assim procurado na ruína, e supõe-se que consista na deterioração. Sendo que, mesmo buscado aí, trata-se apenas da sublimidade das fendas, ou fraturas, ou manchas, ou vegetação, que assimilam a arquitetura à obra da Natureza, e conferem a ela aquelas particularidades de cor e forma que são universalmente caras aos olhos dos homens."

Mas aos olhos dos especialistas em preservação, uma ruína não é só a Sublimidade Parasitária do pitoresco (palavras de Ruskin)Ela pode nos passar muitas informações, principalmente relacionadas à técnica construtiva. 


Nessa ruína do antigo convento e igreja da Santa Casa de Misericórdia da cidade de Igarassu - PE podemos observar, em função da perda do reboco, a técnica construtiva adotada.
Com a alvenaria construída em pedra calcária não aparelhada, observamos o nivelamento feito por tijolos e os arcos de escarção[1] de descarga, também em tijolos, para aliviar os esforços nos dois vãos. Podemos também observar as concreções de óxido de ferro
alvenaria em pedra calcária e nivelamento por tijolos
No portal observamos o uso de pedra calcária cinza de formação gramame (primeira bancada) e o elevado grau de esfoliação em função do sal.
arco de escarção e pedra calcária cinza do portal




[1] arcos de escarção: estrutura suplementar usada para auxiliar outro arco, que pela sua forma torna-se insuficiente para suportar as cargas concentradas na envasadura. Assim, por exemplo, quando se deseja uma verga de alvenaria abatida ou mesmo reta, e por isso capaz de receber somente cargas pequenas, busca-se o auxílio do arco de escarção que ficará situado acima e apoiado nos pés direitos ou encontros, recebendo e isolando as solicitações verticais. – ver Dicionário da Arquitetura Brasileira – Corona & Lemos.

*imagens da autora - 2015
Postado por Cristiane Py