terça-feira, 8 de agosto de 2017

Museu de Congonhas - um livro aberto sobre o santuário, a obra de Aleijadinho e a cultura brasileira.

Essa semana saiu uma matéria na revista Veja falando sobre os "museus de identidade" que surgiram ou que estão em fase de projeto no Brasil. Entre eles podemos citar o museu do Cais do Sertão em Recife, o museu do Amanhã no Rio de Janeiro, o Japan House em São Paulo e o museu de Congonhas. Este último será o assunto do post de hoje.

Esses museus, que não possuem coleções, fogem do modelo tradicional e, através da tecnologia e da interatividade, expõe os valores imateriais da nossa cultura.

Eu devo admitir que nunca fui muito fã de museus. Sempre preferi, em minhas viagens, perambular pelas ruas das cidades observando a arquitetura e a vida urbana. Não foi diferente ao chegar em Congonhas a 3 meses atrás. Minha expectativa estava voltada para o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, obra iniciada em 1757 e concluída em 1872 e que tem como destaque entre seus artífices Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), Francisco Vieira Servas e Manoel da Costa Ataíde.

O santuário em Congonhas é composto por uma igreja localizada no topo de um sacromonte e no seu caminho, além da escadaria com esculturas em pedra (os famosos profetas de Aleijadinho), temos 6 capelas que narram os passos de Jesus. Tombado pela UNESCO como patrimônio mundial desde 1985, o Santuário é, segundo Mario de Andrade, o maior museu de escultura que existe no Brasil.

Ao finalizar minha peregrinação no santuário me dirigi ao museu. Ao contrário da tendência de se fazer "museus esculturas", o museu de Congonhas não nos surpreende por fora e é bem capaz que alguns desavisados até passem por ele.

Fachada do Museu de Congonhas
O museu é voltado para a história do santuário e da obra de Aleijadinho. Nos conta, através da sua interatividade, a história de Bom Jesus de Matosinhos, o início até o término da construção do santuário, passa pelo repúdio que suas esculturas causaram aos intelectuais do séc. XIX, a sua "redescoberta" pelos modernistas no início do séc. XX, o título dado pela UNESCO em 1985 e também pelas intervenções de restauro que sofreu ao longo do tempo.

Nos explica em detalhes todas as cenas das 6 capelas.

Nos explica de forma visual e didática os ofícios tradicionais e suas ferramentas.

instalação com ferramentas de ofícios tradicionais


Como não podia deixar de ser, em um museu voltado para a história de um santuário destinado a receber peregrinos, temos uma sala com exvotos.
ex votos
Ao final, nos deparamos com 2 réplicas 3D dos profetas e os espaços que aguardam as demais.


vista lateral do museu
Posso concluir o post dizendo que o Museu de Congonhas é um livro aberto que nos permite mergulhar de cabeça na história e na cultura brasileira. 

É uma visita imperdível que complementa a visita ao Santuário e, ao contrário de algumas práticas da "indústria cultural",  não inibe e nem direciona a percepção do visitante justamente por ser feita em um momento distinto à peregrinação no conjunto arquitetônico. 

* imagens da autora
* Matéria da revista Veja: Contra a crise, museus, pags. 94-97  - edição de 26 de julho de 2017

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Frase inspiradora:

"Quando a arquitetura é vista como um processo contínuo, no qual as teses e antíteses são dialeticamente integradas, ou como um processo em que a história está tão intimamente envolvida quanto a antecipação da história, em que o passado tem o mesmo peso do olhar voltado para o futuro, então o processo de transformação não é apenas o instrumento do design, mas o próprio objeto deste. Ao mesmo tempo, torna-se possível fazer referência à realidade específica de cada lugar individual onde a arquitetura será construída - e portanto, ao genius loci -, e descobrir a poesia do lugar e dar-lhe expressão. Assim, o lugar é usado da melhor maneira possível."*

                     Oswald Matthias Ungers

* em História Crítica da Arquitetura Moderna, Kenneth Frampton, pag. 360.

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Restauração ou Retrofit?

No final do mês passado nosso escritório entregou uma obra de retrofit de 2 conjuntos comerciais em uma edificação da década de 1960 localizada na Av. Paulista. Aproveitando o espaço do blog vamos falar um pouco desse projeto e dessa obra, mas antes é importante distinguirmos a diferença entre restauração de um patrimônio edificado e o retrofit de uma construção antiga.

Em minhas pesquisas pela internet vi várias definições equivocadas sobre o que seria o ato de restaurar. Em muitos sites e blogs a restauração era colocada como um ato que visava o retorno ao estado original da obra, conceito este que a mais de um século já foi descartado. Para não nos estendermos muito nessa questão é importante dizer que a restauração é um ato de cultura e que deve ser pensada e planejada por uma equipe multidisciplinar. Segundo Cesare Brandi:

"a restauração constitui o momento metodológico do reconhecimento da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro"

"a restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo"

Já o retrofit, que podemos traduzir como "colocar o antigo em forma", é um termo muito usado na engenharia (tanto mecânica como civil) e tem como função adequar e modernizar as instalações de construções (ou equipamentos) pré existentes extendendo a sua vida útil e principalmente adequando-os as normas técnicas atuais.

No projeto dos conjuntos comerciais contemplamos: instalações novas de elétrica, hidráulica, telefonia, rede e ar condicionado; instalação de infra-estrutura para cadeira odontológica; troca dos caixilhos sendo os novos com tratamento acústico; troca de piso; remanejamento geral do layout visando uma proposta multiuso; instalação de forro e divisórias de gesso acartonado; troca das esquadrias por portas de madeira com 80cm de largura visando o desenho universal; mudança de layout com 2 lavabos sendo que um deles permite o acesso do módulo de 1,20x0,80m para uso de cadeirantes.

Nas imagens abaixo vamos ver o antes e o depois da obra realizada.

O Antes:


instalações elétricas aparentes; ar condicionado de janela não possibilitando abertura, piso de carpete
instalações hidráulicas aparentes com piso elevado
instalações hidráulicas aparentes com piso elevado
quadro geral de elétrica dentro do banheiro

O Depois:






piso de porcelanato, luminárias de Led embutidas no forro de gesso acartonado, vidro superior permitindo luz natural na recepção.

ar condicionado trisplit inverter, tomadas à 40cm do piso.

lavabo que permite o acesso do módulo 0,80x1,20m de usuário de cadeira de rodas


caixilho em aluminio com tratamento acústico

* imagens da autora

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte III

Já havíamos discutido aqui no blog a questão da importância do diálogo nas intervenções de restauro (lembrando que quando falamos de restauro e preservação incluímos também a escala urbana) e para continuarmos o debate trago 2 projetos que, no meu ver, souberam dialogar e valorizar o pré existente inserindo uma arquitetura contemporânea.

Ambos os projetos que vamos falar hoje são de autoria do escritório Foster + Partners que tem entre suas obras mais conhecidas a Swiss Re Tower em Londres.

Carré d'Art


Segue abaixo croqui e imagem do Carré d'Art, museu de arte contemporânea localizado na cidade de Nimes na França.




O interessante nesse projeto é que a nova edificação não é um anexo ou extensão da edificação antiga mas um prédio independente localizado em frente ao templo romano. Neste caso se faz importante respeitar o que chamamos de ambiência ou área envoltória do patrimônio cultural. 

Reparem que, no croqui do projeto, adotou-se um conceito que teve como ponto de partida a edificação antiga sendo ela representada em primeiro plano.


Joslyn Art Museum


Este projeto para ampliação do museu em estilo art deco localizado em Omaha, EUA muito se assemelha ao projeto do Sir John A. MacDonald Building discutido no post A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte II.






Reparem que na proposta para a nova ala do museu não foi utilizada a transparência e ou estrutura diagrid, elementos recorrentes nos projetos da Foster + Partners. O novo anexo adota material  de acabamento semelhante ao existente e apenas a interligação entre o prédio antigo e a nova ala é em vidro. O gabarito do novo prédio também respeita o pré existente.

Observação

Assim como cada intervenção de restauro deve ser analisada caso à caso, as obras já implantadas também deverão ser. Por isso é importante deixar claro que neste post estamos analisando os 2 projetos acima e não o conjunto de obras da Foster + Partners.

Leia também:



*imagens do site: http://www.fosterandpartners.com - acesso em 10-07-2017

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 20 de junho de 2017

Restauro de pinturas parietais - Igreja de São Domingos - Salvador - Nov-2015

Conforme prometemos, hoje continuaremos falando de restauro de pinturas em Patrimônio Cultural Edificado. 

No post anterior falamos do restauro de pinturas em forro de madeira e hoje falaremos do restauro de pinturas parietais.

No caso de restauro em pinturas parietais, o primeiro trabalho à ser executado é a prospecção estratigráfica. Com ela conseguimos localizar as diversas camadas de pintura que foram feitas no decorrer do tempo e então decidir qual será restaurada (lembrando que nem sempre a proposta é voltar à pintura original, mas sim aquela que tiver maior valor histórico, artístico e simbólico).

Definindo a camada de pintura à ser restaurada partimos para o processo de remoção das camadas sobrepostas. Esse processo poderá ser feito com solventes ou remoção mecânica.

No caso da Igreja São Domingos, o processo adotado foi o da remoção mecânica com bisturi conforme imagem abaixo.
remoção mecânica com bisturi das camadas de pinturas sobrepostas.
As demais etapas são similares ao restauro dos painéis de azulejo e restauro de pinturas em forros de madeira.

Após a remoção mecânica das camadas sobrepostas fazemos o nivelamento e depois a reintegração cromática.

processo de nivelamento
processo de nivelamento
processo de reintegração cromática

reintegração cromática - técnica do trattégio
detalhe da técnica do trattégio

restauro finalizado
O pontilhismo e o trattégio são técnicas de reintegração pictórica de forma a criar um diferencial entre a pintura original e a restaurada. A distinguibilidade nas intervenções de restauro é uma das principais diretrizes da teoria da restauração de Cesare Brandi.

"A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.33  

"A integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; [...], a integração deverá ser invisível à distância de que a obra de arte deve ser observada, mas reconhecível de imediato, e sem necessidade de instrumentos especiais, quando se chega a uma visão mais aproximada."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.47

* imagens - arquivo pessoal - visita realizada em nov de 2015
* teoria de Cesare Brandi ler: Teoria da Restauração, Cesare Brandi, Ateliê Editorial, Artes & Ofícios

por Cristiane Py       

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Restauro de pinturas em forro de madeira - Catedral Basílica de Salvador - Nov-2015

Em maio de 2016 fizemos um post sobre o Restauro de Azulejos da Basílica de Salvador. Este post foi um dos mais acessados do blog, perdendo apenas para o post Missão Cumprida e A importância do diálogo nas intervenções de restauro, por isso resolvemos retomar o tema e escrever sobre o restauro das pinturas do forro da Basílica de Salvador que estava sendo executado no mesmo período do restauro dos azulejos (novembro de 2015).

As diretrizes para o restauro de pintura em Patrimônio Edificado são similares as diretrizes de restauro em painéis de azulejo.

Abaixo vemos o restauro da pintura do forro de madeira. Neste caso o forro foi desmontado e o trabalho executado na bancada. Vale lembrar que antes da desmontagem do forro é feito um mapa com a numeração e localização de todas as peças removidas.

Nivelamento em forro de madeira - trabalho com mapeamento, desmonte e execução na bancada.
Nivelamento finalizado. Peças aguardando a reintegração cromática.
A reintegração cromática seguiu as diretrizes da teoria da restauração de Cesare Brandi. 

"A restauração deve visar ao restabelecimento da unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.33  

"A integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível; [...], a integração deverá ser invisível à distância de que a obra de arte deve ser observada, mas reconhecível de imediato, e sem necessidade de instrumentos especiais, quando se chega a uma visão mais aproximada."
Cesare Brandi, teoria da restauração pag.47 


Restauro do forro quase finalizado.
Semana que vem vamos falar sobre o restauro das pinturas parietais da Igreja de São Domingos também localizada no Pelourinho em Salvador-BA.

* imagens - arquivo pessoal - visita realizada em nov de 2015
* teoria de Cesare Brandi ler: Teoria da Restauração, Cesare Brandi, Ateliê Editorial, Artes & Ofícios




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Curiosidade - Os terraços da Fallingwater revestidos com folhas de ouro.

A Kaufmann House, conhecida como Fallingwater (Casa das Cascatas),  é uma das obras primas projetada pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright em 1935. Localizada sobre uma cascata entre as colinas da Pennsylvania o projeto tem uma estrutura ousada onde os terraços se fundem com a paisagem.

Além de várias publicações e artigos na internet, a casa hoje é um museu aberto para visitação.

O que eu achei muito curioso, e copio aqui para vcs, é um trecho do livro História Crítica da Arquitetura Moderna do Kenneth Frampton falando sobre o projeto. Segue abaixo:

"A eterna ambivalência de Wright diante da técnica nunca se expressou mais singularmente do que nessa casa, pois embora o concreto tenha tornado o projeto exequível, ele ainda o via como um material ilegítimo - como um "conglomerado" que tinha "pouca qualidade em si". Sua intenção inicial era revestir o concreto da Falling Water com folhas de ouro, um gesto kitsch do qual foi dissuadido pela discrição do cliente. Finalmente, ele resolveu fazer o acabamento da superfície com tinta cor damasco!"
Kenneth Frampton
História Crítica da Arquitetura Moderna, quarta edição, ed. Martins Fontes - pags 228/229 - grifo meu

Fica registrado aqui a primeira curiosidade do blog!

*para mais informações sobre a Fallingwater acesse: http://www.fallingwater.org
*imagens da web - acesso em 05-2016

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ICOMOS Brasil - Simpósio Científico 2017


Semana passada aconteceu em Belo Horizonte-MG o Simpósio Científico do ICOMOS-BRASIL.

O Conselho Internacional de Monumentos e Sítios -  ICOMOS - "é uma organização não governamental associada à UNESCO com a missão de promover a conservação, a proteção, o uso e a valorização de monumentos, centros e sítios. O ICOMOS é o organismo consultor do Comitê Mundial para a Implementação da Convenção do Patrimônio Mundial da UNESCO."


Os temas principais discutidos no simpósio através de palestras, mesas redondas e conferências, foram:


- Reconstrução pós desastre: Perspectivas.
- Patrimônio Cultural no Brasil hoje.
- Reconstrução e musealização do território.

e dentro desses temas vários assuntos foram abordados. Entre eles:

- O caso do subdistrito de Bento Rodrigues-MG destruído pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco em 2015. A declaração de significância está sendo preparada e uma nova cidade está sendo planejada. As ruínas de Bento Rodrigues estuda-se ser mantida, similar a cidade de Oradour-Sur-Glane citada nesse blog no post Uma questão em debate de 29 de agosto de 2016.

- Escudo Azul -"O Escudo Azul é um organismo internacional que funciona como uma espécie de Cruz Vermelha, que congrega pessoas para trabalharem voluntariamente quando existe uma situação de risco ao patrimônio cultural. A ação desse organismo se concretiza na elaboração de planos de emergência e de resgate, na avaliação de riscos e em ações de prevenção implementadas dentro de cada instituição que faz parte do Comitê."

- Turismo Cultural

- Teoria contemporânea da restauração - onde discutiu-se: a mudança de paradigma; a questão do valor simbólico dos bens culturais com ênfase nos sujeitos e não nos objetos; a Carta de Burra; a superação do fetiche material e a importância do sentimento espiritual. Durante os debates foi exposto que a reconstrução não é vetada mas que seu significado é alterado.

- Arquitetura vernácula

- Carta de Juiz de Fora

- Carta de São Paulo

- Museu do Território em Camboja, localizado próximo ao Templo Hindu de Preah Vihear. Um museu que envolveu a população local, que privilegiou a informação visual (em função do alto índice de analfabetismo da região), que valorizou a ligação entre o templo e a paisagem e que resgatou as técnicas tradicionais.

- Patrimônio militar no Brasil. Patrimônio que foi candidato em 2015 (como conjunto de fortificações) para Patrimônio da Humanidade;  a importância de todo o processo para a candidatura; a gestão compartilhada com participação da população e a acessibilidade.

Para concluir posso dizer que foram 3 dias de palestras, conferências e debates que ajudaram a enriquecer o conhecimento de todos os participantes na questão do Patrimônio Cultural.


*imagens da autora e da web - acesso em 05-2017

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Memórias Paulistanas


Na última quarta-feira fui almoçar com uma colega arquiteta na região da Vila Mariana em São Paulo. No trajeto ao restaurante pegamos um atalho e eis que eu me deparo com esse detalhe no piso.

O piso de caquinhos de cerâmica é muito conhecido dos paulistanos mas com a verticalização das antigas vilas residenciais esse patrimônio está se perdendo.

A história dos caquinhos já é bem conhecida dos moradores de São Paulo mas vamos resumir para aqueles que não compartilham dessa memória.

Por volta da década de 1940/50 a cidade de São Paulo, em ampla expansão, possuía duas grandes indústrias de cerâmica, ladrilhos e telhas sendo uma delas a Cerâmica São Caetano. Essas indústrias produziam lajotas cerâmicas de 20x20cm na cor vermelha (a mais popular e menos custosa), preta e amarela. Durante a produção das lajotas ocorriam quebras e os "caquinhos" eram descartados pelas indústrias. Eis que um dia um dos funcionários da empresa, que estava à reformar sua casa e não tinha dinheiro suficiente para adquirir as lajotas de 20x20cm, teve a idéia de usar os "caquinhos". O refugo foi prontamente cedido pela empresa ao seu funcionário. 

A partir daí, o reaproveitamento dos caquinhos foi um sucesso a ponto de faltar o refugo e sobrar as peças inteiras!!! Acreditem, dizem que a indústria para atender a demanda passou a quebrar peças novas e o custo dos caquinhos chegou à ficar maior que o da cerâmica inteira.

Os "caquinhos" foram usados nos pisos e revestimentos de paredes em residências e pontos comerciais até início da década de 1970 mas, como dissemos acima, a verticalização da cidade aos poucos foi acabando não só com a técnica como também  com o registro.

O interessante neste vestígio que cruzou o meu caminho são os detalhes, que imagino ser de latão, para registrar a logomarca do antigo ponto comercial, hoje um estacionamento.

*imagens da autora
Postado por Cristiane Py

terça-feira, 28 de março de 2017

Segue a dica: Blocos de Memórias - Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural


Na última quarta-feira no dia 22-03-2017, aconteceu o lançamento do livro Bloco de Memórias - Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio cultural da professora Flávia Brito do Nascimento.

O livro, dividido em três partes, debate:

Parte 01 - Moderno é Patrimônio
Parte 02 - Habitação e Patrimônio
Parte 03 - Habitar o Patrimônio Moderno.

e na contra capa do livro temos:

"Este livro estuda a preservação dos conjuntos residenciais modernos construídos no Brasil entre 1930 e 1964, pensando-os do ponto de vista do patrimônio cultural. Esses conjuntos, destinados à habitação social, são exemplares importantes da história da arquitetura moderna brasileira, porém tem sua preservação seriamente ameaçada. [...]"

Como aluna especial em duas disciplinas da pós-graduação da FAUUSP ministradas pela Profa. Flávia tive oportunidade de desconstruir uma visão estabelecida pela historiografia oficial e ter um olhar mais crítico e voltado para o social nas questões do patrimônio cultural e arquitetura moderna.

Fica aqui a dica para aqueles que desejam se aprofundar no tema!!!


*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Frase Inspiradora:

"A relação entre uma nova intervenção arquitetônica e a arquitetura já existente é um fenômeno que muda de acordo com os valores culturais atribuídos tanto ao significado da arquitetura histórica como às intenções da nova intervenção.

Daí se conclui que é um grande erro pensar que se possa formular uma doutrina permanente ou, pior, uma definição científica da intervenção arquitetônica. Ao contrário, apenas compreendendo caso à caso os conceitos que fundamentam a ação é possível distinguir as características que essas relações assumiram no decorrer do tempo. O projeto de uma nova obra de arquitetura não somente se aproxima fisicamente da que já existe, estabelecendo com ela uma relação visual e espacial, como cria uma interpretação genuína do material histórico com o qual tem de lidar. De modo que esse material é objeto de uma verdadeira interpretação que explícita ou implicitamente se associa com a nova intervenção em toda a sua importância."

Ignasi de Solà-Morales Rubió

* trecho do texto Do contraste à analogia: novos desdobramentos do conceito de intervenção arquitetônica em Uma Nova Agenda para a Arquitetura, organizadora Kate Nesbitt, pag. 254

postado por Cristiane Py

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Ponte Q`eswachaka - Uma ampliação dos conceitos de Patrimônio Cultural

Em 1994 no Japão foi realizada a Conferência de Nara

Concebida seguindo o espírito da Carta de Veneza de 1964, esta conferência foi uma resposta à globalização, alargando os conceitos referentes ao Patrimônio Cultural.

"Todos os julgamentos sobre atribuição de valores conferidos às características culturais de um bem, assim como a credibilidade das pesquisas realizadas, podem diferir de cultura para cultura, e mesmo dentro de uma mesma cultura, não sendo, portanto, possível basear os julgamentos de valor e autenticidade em critérios fixos. Ao contrário, o respeito devido a todas as culturas exige que as características de um determinado patrimônio sejam considerados e julgados nos contextos culturais aos quais pertençam."

A conferência, voltada para a discussão de autenticidade, desafiou o pensamento tradicional a respeito da conservação.
Ponte Inca Q`eswachaka
Na imagem acima, vemos a Ponte Inca Q`eswachaka em Cuzco no Peru. 

Esta ponte de corda torcida é reconstruída à cada 2 anos desde o Império Inca pelas comunidades locais e faz parte do sistema viário andino Qhapaq Ñan (Caminho Inca) reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2014. 

O ritual de sua reconstrução recebeu em 2012 menção honrosa do Prêmio Internacional Domus Restauro e Conservação Fassa Bartolo.

O reconhecimento por parte da UNESCO e a menção honrosa do prêmio italiano de restauro foram resultados da ampliação dos conceitos de Patrimônio Cultural discutidos na Conferência de Nara de 1994.






*imagens da WEB
** para mais informações sobre a ponte Q`eswachaka acesse: 

postado por Cristiane Py

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O Muro de John Lennon - Arte efêmera e Patrimônio Cultural





As imagens acima são do Muro de John Lennon localizado em Praga na República Tcheca. Usado como suporte para grafites políticos e letras de Rock (que eram proibidos pelo governo) ele se tornou um marco da juventude da cidade nos anos 1960, 70 e 80.

O interessante desse muro é que apesar das várias tentativas de mantê-lo "limpo" com várias demãos de tinta, ele sempre voltava a ser usado como suporte dos grafites e manifestações.

O proprietário atual do muro desistiu de tentar mantê-lo "limpo" e o local virou ponto de peregrinação principalmente dos jovens do Leste Europeu.

Vemos nas fotos acima um grupo comemorando a formatura e deixando o seu registro no muro.

Como um representante da arte efêmera, ou seja, uma arte que não tem um caráter de permanência, não são os grafites e pichações que tornam o Muro de John Lennon um representante do Patrimônio Cultural de Praga, mas sim o local como um marco político que diariamente vai de transformando com novos desenhos e registros.




* imagens da autora