terça-feira, 29 de março de 2016

Vandalismo X Educação Patrimonial



Semana passada o grande debate na mídia sobre patrimônio e preservação foi a pichação na Igreja de São Francisco de Assis em Belo Horizonte incluindo também como alvo o painel de azulejo do artista Cândido Portinari.

Mais conhecida como a igrejinha da Pampulha, com projeto assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e  tombada pelo Órgão Federal de Preservação desde 1947, atualmente a igreja é candidata, junto com o conjunto arquitetônico da Pampulha, à Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

O IPHAN já começou os trabalhos de limpeza e restauração e o responsável pelo ato de vandalismo já foi identificado e indiciado pela polícia civil.

A alegação do infrator perante o ato foi desconhecer o fato da edificação ser Patrimônio Cultural (o que não justifica o vandalismo mesmo sendo em edificações comuns). Surge então, após tal depoimento, a importância da Educação Patrimonial para preservação dos Monumentos Históricos.

Os teóricos do séc XIX, principalmente John Ruskin e Max Dvorak, e as Cartas Patrimoniais do séc. XX já discutiam essa questão.

Na Carta de Atenas de outubro de 1931 temos (grifo meu):

"A conferência profundamente convencida de que a melhor garantia de conservação de monumentos e obras de arte vem do respeito e do interesse dos próprios povos, considerando que esses sentimentos podem ser grandemente favorecidos por uma ação apropriada dos poderes públicos, emite voto de que os educadores habituem a infância e a juventude a se absterem de danificar os monumentos, quaisquer que eles sejam, e lhes façam aumentar o interesse, de uma maneira geral, pela proteção dos testemunhos de toda a civilização."

No Compromisso de Brasília de abril de 1970 temos:

"Sendo o culto ao passado elemento básico da formação da consciência nacional, deverão ser incluídas nos currículos escolares, de nível primário, médio e superior, matérias que versem o conhecimento e a preservação do acervo histórico e artístico, das jazidas arqueológicas e pré-histórcias, das riquezas naturais, e da cultura popular …"

Vale ressaltar que as Cartas Patrimoniais, com base deontológica, não tem caráter normativo, elas indicam e dão diretrizes.

A atuação rápida para limpeza e restauro de um monumento histórico alvo de vandalismo é uma exceção. Abaixo seguirão algumas imagens do meu acervo pessoal mostrando o quanto a falta de educação patrimonial prejudica a preservação dos bens culturais.


Largo da Memória  - São Paulo - SP
Teatro Municipal - São Paulo - SP
base do cruzeiro do conjunto Franciscano -  Olinda - PE
danos causados por ações religiosas

Sobrado com Muxarabis - Olinda - PE
Moita do Engenho Poço Comprido - Vicência - PE
Conjunto Franciscano - Recife - PE



* imagem igreja São Francisco BH - web - acesso em 29-03-2016
* demais imagens - acervo pessoal

por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br

quarta-feira, 23 de março de 2016

Semana Santa - O local onde tudo aconteceu

Salvador Muñoz Viñas, cuja teoria da restauração se baseia principalmente na questão simbólica do patrimônio, diz: 

"Se restaura para satisfazer sensibilidades, e […] uma boa restauração é a que satisfaz o maior número de sensibilidades."

Dito isso, posso afirmar que Jerusalém, além de ser uma das mais antigas cidades do mundo, é também aquela que atende o maior número de sensibilidades. Considerada sagrada e chamada de terra santa é reverenciada pelas três maiores fés monoteistas do mundo: o judaismo, o cristianismo e o islamismo.

Em dezembro de 1996 estive com um grupo de arquitetos fazendo a peregrinação em Jerusalém. O primeiro pensamento que tive ao observar o envolvimento das pessoas com o local foi:

"esta terra não tem "nada". Não tem ouro, não tem diamante, não tem petróleo, não tem terra fértil mas todos brigam por ela, todos querem estar nela."

A cidade de Jerusalém muito mais do que uma terra para ser explorada é um local de rememoração e evocação.

Ainda  palavras de Viñas:

"Os Objetos de Restauração não são primordialmente objetos materialmente úteis […] são objetos rememoradores. Como tal, não são necessariamente importantes por si mesmos, e sim pelo que são capazes de evocar"


A cidade amuralhada de Jerusalém é dividida hoje em 4 bairros sendo eles: (bairro cristão, judeu, muçulmano e armênio).

No bairro muçulmano encontramos o Domo da Rocha. Mesquita construida sobre a pedra que, segundo o alcorão, foi onde Maomé ascendeu aos céus. Esta mesma pedra é também reverenciada pelos cristãos e judeus pois, segundo a bíblia, foi onde Abraão provou sua fé a Deus.




No bairro judeu encontramos o muro das lamentações, único vestígio do templo de Salomão e local mais próximo onde o povo judeu consegue chegar da pedra de Abraão localizada, como dissemos acima, na mesquita do bairro muçulmano.




No bairro cristão encontramos a igreja do Santo Sepulcro onde temos o túmulo de Jesus e o lugar da crucificação. 



Caminhando pela cidade antiga, pode-se também fazer o percurso da via dolorosa.


Em 1981 a cidade amuralhada de Jerusalém foi considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco e hoje se encontra também na lista dos Patrimônios em perigo.

Vale, para finalizar esse texto, citar a frase de Ruskin que já consta na barra lateral do blog:

"nós podemos viver sem ela [arquitetura] e orar sem ela, mas não podemos rememorar sem ela"



Vista de edificações modernas: respeito ao gabarito da cidade (altura da construção) e ao acabamento externo. 


* imagens acervo pessoal


por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br

sexta-feira, 18 de março de 2016

Praça São Francisco - Desde o séc. XVII um Espaço de Convivência



Ontem fui a um Simpósio no Instituto Tomie Ohtake onde foi distribuido o livro Arquitetura Brasileira, o coração da cidade - A Invenção dos Espaços de Convivência

O texto introdutório do curador da exposição que gerou o livro, Julio Katinsky, faz uma retrospectiva da evolução da arquitetura e sociedade brasileira. Em um dos trechos temos:

" Até meados do séc XIX, o espaço mais destacado das vilas e cidades foi a igreja e seu terreiro, adro ou praça. Essa disposição consagrava a rígida pirâmide social: capela mor, nave, e adro ou praça, esta ocupada pelas mais humildes camadas livres da sociedade. Entretanto, foi a partir do adro ou terreiro que se desenvolveram atividades existentes ainda hoje: sabe-se que os grandes cortejos carnavalescos têm sua origem nas procissões barrocas encenadas até hoje. A intenção espetacular subsistente em muitas obras de arquitetura brasileira pode ser uma sobrevivência da mesma atitude barroca."

Na exposição e no livro encontramos exemplares da arquitetura moderna e contemporânea realizada por arquitetos brasileiros incluindo Lina Bo Bardi, Niemeyer, Ruy Ohtake, Lucio Costa, Toscano, Artigas, entre outros.

A idéia desse post é retrocedermos no tempo e falarmos da Praça São Francisco localizada na cidade de São Cristovão, em Sergipe. Vale lembrar que São Cristovão foi a primeira capital do estado de Sergipe, é a 4a cidade mais antiga do país e foi fundada na época do domínio espanhol (quando Portugal e Espanha reinavam juntas). 

O conjunto da Praça São Francisco, formado também por edificações históricas, é reconhecida desde 2010 pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Tive o prazer, junto com a turma do CECI, de visitar esse Patrimônio em novembro de 2015.

O termo de significância que justificou a inclusão da Unesco segue abaixo:


"apresenta uma fusão importante de modelos urbanos, que ocorreu durante a unificação de dois impérios rivais."

"A Praça São Francisco é um excelente exemplo de conjunto arquitetônico harmonioso e coerente, que tem-se preservado como um marco social da cidade e um lugar de manifestações culturais e sociais. Ele mostra um paradigma de planejamento urbano integrado e  racional às especificidades da topografia local. "








Abaixo foto da Procissão de Passos tirado do poster de um restaurante local

Abaixo capa do livro citado no começo do post


Para mais informações sobre a Praça São Francisco acesse:




*imagens acervo pessoal

por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br

segunda-feira, 14 de março de 2016

Checkpoint Charlie



        Ontem assiste o filme Ponte dos Espiões dirigido por Spielberg e estrelado pelo sempre incrível Tom Hanks.

O enredo é baseado na história real do advogado americano que negociou a troca de um espião russo por dois americanos (um piloto e um estudante) no tempo da Guerra Fria.

Quem não viu segue a dica!

Me animei a escrever esse post pois um dos americanos foi liberto no Checkpoint Charlie, nome dado pelos Aliados a um posto militar (posto C) entre as duas Alemanhas. Haviam outros pontos de fronteira mas o Checkpoint Charlie foi o que se tornou símbolo da Guerra Fria.

            A infraestrutura deste posto no lado ocidental era simples constando apenas de uma cabine de madeira como mostram as fotos em preto e branco.

A cabine que vemos nas fotos acima não existe mais pois em 1980 ela foi substituída por uma de metal.

A cabine de metal dos anos 80, por sua vez, hoje se encontra no Museu do Tranenpalast (único ponto de fronteira, entre os sete existentes, localizado em uma estação de trem). Hoje esse edifício além de museu é considerado patrimônio histórico e abriga a exposição “Experiências de fronteira. O cotidiano da divisão alemã”.

E a cabine que existe hoje no mesmo local do Checkpoint Charlie formando filas de turistas para visitar e fotografar?


É uma réplica, um clone, um falso histórico criado nos anos 2.000 para atender a demanda do turismo de massa.

            Segundo Hernandez Martinez, no seu texto Reconstruccion o destruccion: un triste epílogo para la arquitectura del siglo XX, a banalização dessa reconstrução é uma das várias questões que o Leste Europeu e Moscou estão passando incluindo destruições de Monumentos Históricos e reconstruções de edifícios do séc. XIX.


            Lembrando as palavras de Françoise Choay a indústria patrimonial está nos vendendo ilusões à guisa dos valores prometidos.

* imagens da WEB -  acesso em 14-03-2016

por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br

quarta-feira, 9 de março de 2016

Visita à Igreja e Convento de Santo Antonio - Recife, PE - Novembro de 2015


“Sétimo convento franciscano erigido no Brasil, e o quarto sob a invocação de Santo Antônio de Lisboa, o Convento Franciscano de Santo Antônio talvez seja uma das obras mais antigas do Recife.
Além de representar a maior coleção de azulejos, da época da presença holandesa no país, se constitui, ainda, em um dos mais conservados e respeitados acervos do Patrimônio Histórico e Artístico do Brasil."(1)

O complexo arquitetônico pertence a ordem franciscana e inclui, além da igreja e do convento de Santo Antônio, a Capela Dourada e o Museu Franciscano de Arte Sacra pertencentes à ordem terceira.
A construção data de 1.604 mas o foco da nossa visita, os painéis de azulejo do claustro do convento, datam do séc. XVIII.

Com a substituição do piso de tijoleira pelo ladrilho em 1941 as patologias nos azulejos, em função da umidade ascendente na alvenaria, aceleraram o processo de degradação. Segundo o Prof. Jorge E. L. Tinoco do CECI, a má qualidade na fabricação dos azulejos dessa época, em função do aumento da procura e consequente aumento de produção, também favoreceram o surgimento de patologias.

Em 2011, o IPHAN assumiu uma grande obra de restauração dos 25 painéis de azulejo do claustro e 10 painéis da capela dourada. Foram envolvidos nesse trabalho mais de 30 profissionais e os azulejos foram restaurados pelo método do faceamento, desmonte, limpeza, dessalinização, consolidação, nivelamento e reintegração que foi executada sobre placas cimentícias distanciadas da alvenaria. Nesse restauro foram usados como referência fotos dos painéis tiradas na década de 1930 (antes da troca do piso em 1941) onde o processo de degradação ainda não estava avançado. A resina adotada no trabalho foi a HXTAL NYL-1 (Epoxy Adhesive), que se assemelha ao vitrificado do azulejo mas de difícil reversibilidade. Foi utilizado também filtro UV.


– painéis de azulejos da portaria do convento que não foram restaurados em 2011. Observam-se as patologias (lacunas, desagregação, esfoliação, perdas e intervenções indevidas).


– painéis de azulejos do claustro após o restauro de 2011. Observa-se o dreno executado na base do painel para evitar a umidade ascendente (vala de ventilação). A tampa da vala é provisória. O projeto contempla a tampa no mesmo acabamento do piso de ladrilho. Cor ocre substituindo a cor branca anterior ao restauro.


– detalhe da junta de suspiro (2) no contorno dos azulejos
– detalhe da reintegração dos desenhos. Interessante notar o amarelamento da resina HXTAL NYL-1.


 – faixa de azulejo entre o claustro superior e inferior encontrados no séc. XX. Esses azulejos são de origem holandesa.


– escoras na viga de madeira do coro da igreja de Santo Antônio.


     
– painéis de azulejo da Capela Dourada da Ordem Terceira. Interessante notar a não continuidade da paisagem no desenho. A alteração das peças e preenchimento com outras era comum em obras de restauro para gerar melhor percepção na paisagem.


– detalhes das talhas de madeira com douramento da Capela Dourada. 
- observamos a massa de nivelamento e o bolo armênio camadas anteriores à folha de ouro.

*imagens acervo pessoal

por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br



1 - Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Convento Franciscano de Santo Antônio (Recife, PE).  Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife.  Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/
2 - o termo junta de suspiro constava nas anotações feitas no dia da visita. Pensou-se em ser junta de respiro mas outras colegas e o áudio da palestra confirmaram o termo junta de suspiro e optou-se usar este ao invés de junta  de respiro.

segunda-feira, 7 de março de 2016

O Arquiteto, O Pesquisador, O Inspetor, O Restaurador, O Gestor

Viollet Le Duc (França 1814-1879) foi um dos pioneiros a teorizar e trabalhar no campo da restauração. Arquiteto por formação, pesquisador da arquitetura gótica por paixão, Inspetor Geral da Comissão de Artes e Edifícios Religiosos por nomeação e restaurador, Le Duc foi a inspiração para vários profissionais que se iniciavam na área de restauro no final do séc. XIX.
Abaixo citaremos alguns trechos do seu Verbete Restauro (na ordem de leitura posta pelo autor) de forma a analisar alguns princípios definidos por ele.
Restauração, s. F. A palavra e o assunto são modernos. Restaurar um edifício não é mantê-lo, repará-lo ou refazê-lo, é restabelecê-lo em um estado completo que pode não ter existido nunca em um dado momento.”(1)
Essa é a famosa e tão criticada definição de restauração de Viollet Le Duc que abre o seu Verbete Restauro no Dictionnaire Raisonné de lÁrchitecture Française.
 Gustavo Giovannoni (Itália 1873-1947), que também escreveu um Verbete sobre Restauro para a Enciclopédia Italiana em 1936, critica abertamente essa visão de Le Duc. Para Giovannoni o método de repristinação adotado por Le Duc conduz ao falso histórico e segue tendências personalizadas(2). Mas Giovannoni reconhece que a teoria de Le Duc abriu caminho, junto com a teoria antagônica de Ruskin, para uma teoria intermediária seguida por ele e por Camillo Boito (Itália 1836-1914).
“O nosso tempo, e somente o nosso tempo, desde o começo dos séculos históricos, tomou, em face do passado, uma atitude inusitada. Quis analisá-lo, compará-lo e formar sua verdadeira história, seguindo passo a passo a marcha, os progressos, as transformações da humanidade.”(3)
Nesse trecho Le Duc consagra o nascimento do Monumento Histórico. Em 1884 em sua conferência em Turim, Camillo Boito discursa reconhecendo em sua época uma grande virtude: reconhecimento do valor em todas as obras de todos os séculos passados sem distinção de estilo.(4)
“Com efeito, para conhecer a história de uma arte, não é suficiente determinar os diversos períodos que trilhou em um dado lugar, é preciso seguir sua marcha em todos os lugares onde ela se produziu, indicar as diversas formas de que se revestiu sucessivamente, e elaborar o quadro comparativo e todas essas diversas formas, confrontando não apenas cada nação,  mas cada província de um mesmo país”(5)
“... admite por princípio que cada edifício ou cada parte de um edifício devam ser restaurados no estilo que lhes pertence, não somente como aparência, mas como estrutura... É, portanto, essencial, antes de qualquer trabalho de reparação, constatar exatamente a idade e o caráter de cada parte, compor uma espécie de relatório respaldado por documentos seguros, seja por notas escritas, seja por levantamentos gráficos.”(6)
“ O arquiteto encarregado de uma restauração deve, pois, conhecer exatamente não somente os tipos referentes a cada período da arte, mas também os estilos pertencentes a cada escola.”(7)
Profundo pesquisador da arquitetura medieval, vemos, nas citações acima, que Le Duc considerava imprescindível uma pesquisa aprofundada e detalhada sobre a história, o estilo e a técnica referente a edificação a ser restaurada antes de iniciar-se qualquer intervenção. Essa preocupação com uma documentação aprofundada será base do restauro filológico adotado posteriormente pelos italianos Boito e Giovanonni.
No início da segunda citação, referente a questão de unidade de estilo ... admite por princípio que cada edifício ou cada parte de um edifício devam ser restaurados no estilo que lhes pertence...”  não é considerada, segundo o artigo 11o da Carta de Veneza (1964),  uma finalidade a se alcançar. Max Dvořák (Áustria 1874-1921) considerava que a predileção por um estilo, era duplamente nefasta para a preservação do monumento, pois consideravam os outros estilos como um equívoco ou falta de gosto e descartava todos os acréscimos existentes de outras épocas  que fugiam do estilo original.(8)
“..agir em razão das circunstâncias particulares. Quais são essas circunstâncias particulares? Não poderíamos indicar todas; será suficiente assinalar algumas entre as mais importantes, a fim de ressaltar o lado crítico do trabalho.”(9)
            A questão da crítica no trabalho de restauração já havia sido citado por Le Duc em referência a trabalhos realizados na Itália e na Espanha(10). O Restauro Crítico, teoria subsequente do restauro filológico, começará a ser discutido no pós guerra e só será consolidado com a Carta de Veneza de 1964. Essa nova vertente vai inserir e valorizar uma leitura estética e não só documental no Patrimônio Cultural.
“Antes de mais nada, antes de ser arqueólogo, o arquiteto encarregado de uma restauração deve ser um construtor hábil e experimentado, não somente do ponto de vista geral, mas do ponto de vista particular; isto é, deve conhecer os procedimentos de construções admitidos nas diferentes épocas de nossa arte e nas diversa escolas.”(11)
            A formação do Arquiteto já era uma preocupação para Le Duc. Só na segunda década do séc. XX é que será criada, com o apoio de Gustavo Giovannoni, em Roma na Itália, a primeira Escola Superior e posterior Faculdade de Arquitetura ligada a Universidade La Sapienza. Giovannoni introduziu, desde o primeiro ano de sua criação, a disciplina Restauro como obrigatória. Ele se preocupava não só com a formação do arquiteto para trabalhar no campo do Restauro mas também com a sua formação teórica e humanística tão presente nas teorias de Ruskin(12)
“Deve-se portanto pensar duas vezes quando se trata de completar partes faltantes em um edifício da idade média e estar bastante imbuído da escala admitida pelo construtor primitivo.”(13)
O desenvolvimento do projeto de restauração se colocando no lugar do construtor primitivo é um dos conceitos mais criticados nas teorias de Viollet Le Duc.
“Nas restaurações, há uma condição dominante que se deve ter sempre em mente. É a de substituir toda parte retirada somente por materiais melhores e por meios mais eficazes ou mais perfeitos. É necessário que o edifício restaurado tenha no futuro, em consequência da operação a qual foi submetido, uma fruição mais longa do que a já decorrida.”(14)
A preocupação em remeter e transmitir o trabalho de restauração para as gerações futuras é seguida por todas as vertentes contemporâneas da teoria da restauração. Max Dvořák dizia a esse respeito: “A restauração não deve jamais ser um fim em si mesma, mas deve significar um meio de assegurar aos monumentos sua integridade e seu efeito, conservando-o piedosamente para as futuras gerações.”(15) Na introdução da Carta de Veneza de 1964 temos: “A humanidade, cada vez mais consciente da unidade de valores humanos, as considera [as obras monumentais], um patrimônio comum e, perante as gerações futuras, se reconhece solidariamente responsável por preservá-las, impondo a si mesma o dever de transmiti-las na plenitude de sua autenticidade.(16)

“A natureza dos materiais, a qualidade das argamassas, o solo, o sistema geral da estrutura [...] a maior ou menor elasticidade da alvenaria, constituem temperamentos diferentes.”(17)
O conhecimento técnico referente aos materiais presentes no Monumentos Históricos e os a ser utilizados na obra de restauro é outra questão já pertinente na teoria leduciana.
“O arquiteto nesses casos difíceis que se apresentam com frequência durante as restaurações, deve ter previsto tudo, até os efeitos mais inesperados, e deve ter de reserva, sem pressa e sem inquietação, os meios de prevenir as consequências desastrosas.”(18)
Trabalhar sobre um preexistente não é o mesmo que executar uma nova edificação. A prática na área demostrava isso para Le Duc.
“ Foi nos canteiros de restauração que as indústrias da serralheria fina forjada, das fundições de chumbo trabalhada, da marcenaria, compreendida com uma estrutura própria, da vidraria artística, da pintura mural, se ergueram do estado de abatimento em que caíram no começo do século.”(19)
“longe de encontrar todos os recursos que os grandes centros fornecem, tiveram [os arquitetos] de criar, formar operários, estabelecer métodos regulares, seja como contabilidade, seja como modo de conduzir canteiros.”(20)
Viollet Le Duc  já reconhecia a importância de se trabalhar com uma mão de obra especializada e da importância da formação dos profissionais técnicos que trabalhariam no canteiro de obras.
“A escola de arquitetura estabelecida em Paris, e estabelecida somente em Paris, preocupa-se com coisa completamente diferente, formava laureados para a Academia de França em Roma, bons desenhistas, alimentados por quimeras, mas muito pouco apropriados para dirigir um canteiro na França do século XIX.”(21)
Mais uma vez, Le Duc questiona a formação dos arquitetos e da centralização da academia. Ele também considerava a centralização do órgão gestor dos restauros da França um problema a ser superado.
“... no entanto não tardaram a reconhecer [os arquitetos] que quanto mais os trabalhos que mandavam executar se encontrassem em localidades isoladas, mais a influência benéfica desses trabalhos se faria irradiar, por assim dizer.”(22)
A participação da sociedade local em uma obra de restauro já é vista por Le Duc de forma positiva. A valorização do Patrimônio Histórico pela sociedade em que ele está inserido é um item fundamental para sua percepção, valorização e conservação. O papel da Educação Patrimonial de jovens e crianças é um dos itens integrantes da Carta de Atenas de 1931.
“... o melhor meio para conservar um edifício é encontrar para ele uma destinação. É satisfazer tão bem todas as necessidades que exige essa destinação, que não haja modo de fazer modificações.”(23)
            Vemos nesse trecho que o arquiteto já considerava a questão do uso do Patrimônio Histórico um item fundamental para a sua preservação. No artigo 5o da Carta de Veneza temos: “A Conservação dos monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil a sociedade…”(24)
“... o melhor a fazer é colocar-se no lugar do arquiteto primitivo e supor aquilo que ele faria se, voltando ao mundo, fossem a ele colocados os programas que nos são propostos.”(25)
            Mais uma vez Le Duc cita a questão tão criticada sobre: colocar-se no lugar do arquiteto primitivo. Nesse trecho ele destaca a importante questão dos programas impostos pela mudança de uso e pelas adequações das técnicas modernas, de conforto e de salubridade.
“... A fotografia, que a cada dia assume um papel mais sério nos estudos científicos, parece vir a propósito para ajudar nesse grande trabalho de restauração  dos edifícios antigos ”(26)
            Um levantamento meticuloso da obra era uma das questões mais defendidas na teoria leduciana. Ele encontrou na fotografia um instrumento de registro fidedigno para os  remanescentes dos Monumentos Históricos antes e durante a obra de restauro. A questão documental num projeto de restauro é, como dissemos acima, a base do restauro filológico seguido por Boito e Giovannoni.
“...decidir sobre uma disposição a priori sem se cercar de todas as informações que devem comandá-las, é cair na hipótese, e nada é tão perigoso quanto a hipótese em trabalhos de restauração.”(27)
Essa citação pertence aos trechos finais do Verbete Restauro. Curioso compará-la ao primeiro trecho que abre o verbete e as obras práticas de restauro realizadas por Viollet Le Duc, mas a intenção desse trabalho não é tirar conclusões e nem realizar críticas.

por Cristiane Py - www.cristianepy.com.br



1-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 29.
2-Gustavo Giovannoni – Textos Escolhidos, Arte & Ofícios, p. 194, 195.
3-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 32, 33.
4-Camillo Boito, Os Restauradores, Artes & Ofícios.
5-Vitet, nomeado em 1830 Inspector Geral dos Monumentos Históricos, em texto elaborado para a Catedral de Noyon em 1845 – Viollet Le Duc usa algumas de suas palavras como complemento para o seu Verbete - Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 42.
6-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios p. 47 – grifo nosso.
7-Ibidem, p. 48.
8-Max Dvořák, Catecismo da Preservação de Monumentos, Artes & Ofícios.
9-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 49 – grifo nosso.
10-Ibidem, p. 47.
11-Ibidem, p. 49.
12-Gustavo Giovannoni, Textos Escolhidos, Artes & Ofícios.
13-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 54 – grifo nosso.
14-Ibidem, p. 54 – grifo nosso.
15-Max Dvořák, Catecismo da Preservação de Monumentos, Artes & Ofícios, p. 99 – grifo nosso.
16-Carta de Veneza – maio de 1964 – grifo nosso.
17-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 55 .
18-Ibidem, p. 58 – grifo nosso.
19- Ibidem, p. 59.
20-Ibidem, p. 59 – grifo nosso.
21-Ibidem, p. 60,61– grifo nosso.
22-Ibidem, p. 61, 62 – grifo nosso.
23-Ibidem, p. 65 – grifo nosso.
24-Carta de Veneza – maio de 1964.
25-Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, Restauração, Artes & Ofícios, p. 65 – grifo nosso.
26-Ibidem, p. 68.
27-Ibidem, p. 69.