terça-feira, 29 de agosto de 2017

Jornada do Patrimônio: a técnica do micro jateamento.

No fim de semana dos dias 19 e 20 de agosto aconteceu na cidade de São Paulo a Jornada do Patrimônio. Foram 2 dias de visitas a imóveis históricos, roteiros de memória, oficinas, palestras e apresentações artísticas.

A programação foi ampla, atingindo todas as regiões da cidade, o que torna bem complicado falarmos da Jornada por inteiro, por isso selecionei, para este post, apenas a oficina Os Desafios da Limpeza de Superfícies de Edificações Históricas: o caso do Theatro Municipal.

Acho importante comentar que em 2015 desenvolvi um trabalho sobre cantaria para o Curso de Gestão de Restauro do CECI. Neste trabalho segui um roteiro no Centro de São Paulo analisando os danos e as patologias em pedras de cantaria. O Teatro Municipal fazia parte desse roteiro e um dos maiores danos na cantaria do teatro verificado na época foi o grafitismo (pichação).

Na oficina da Jornada tive oportunidade de participar da limpeza que está sendo executada na fachada incluindo a limpeza do grafitismo, patologia já verificada em 2015.

A técnica, testada e adotada pelo escritório Pires Giovannetti Guardia, foi o do microjateamento com areia garnet abrasiva. O trabalho foi nos apresentado pelos arquitetos Juca Pires e Mariana Rillo e realizado pela equipe do escritório.

Abaixo algumas imagens do processo.

aplicação do microjateamento com areia garnet abrasiva.
Importante falar que a pressão do jato bem como a sua duração foi testada previamente em cada superfície.
parte superior grafitismo não removido
parte inferior grafitismo removido
grafitismo removido. Percebe-se um pequeno clareamento na área aonde foi aplicado o micro jateamento
Após a limpeza, é aplicado, por pulverização, um produto unimineral para proteção da cantaria. Esse produto não permitirá que a tinta de futuros atos de vandalismo se impregne na cantaria, permitindo uma fácil remoção.

O trabalho da limpeza do grafitismo na fachada poderia ter sido evitado se a sociedade tivesse consciência do valor histórico e cultural do monumento ou seja, investimentos devem ser feitos não só para o desenvolvimento de técnicas para preservação e restauro do Patrimônio Edificado mas também para a Educação Patrimonial que, ao meu ver, deve ser iniciada já na educação infantil.



*imagens da autora - 19-08-2017

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Frase inspiradora:

"..., o novo deve produzir-se segundo metodologias científicas e o velho deve ser conservado segundo metodologias científicas. Portanto, o debate não é entre velho e novo, nem tampouco entre pessoas que gostam do velho e pessoas que gostam do novo, mas entre duas disciplinas cujas diferenças metodológicas sempre poderão resolver-se no plano dialético."

Giulio Carlo Argan
História da Arte como história da cidade-pag. 89

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Museu de Congonhas - um livro aberto sobre o santuário, a obra de Aleijadinho e a cultura brasileira.

Essa semana saiu uma matéria na revista Veja falando sobre os "museus de identidade" que surgiram ou que estão em fase de projeto no Brasil. Entre eles podemos citar o museu do Cais do Sertão em Recife, o museu do Amanhã no Rio de Janeiro, o Japan House em São Paulo e o museu de Congonhas. Este último será o assunto do post de hoje.

Esses museus, que não possuem coleções, fogem do modelo tradicional e, através da tecnologia e da interatividade, expõe os valores imateriais da nossa cultura.

Eu devo admitir que nunca fui muito fã de museus. Sempre preferi, em minhas viagens, perambular pelas ruas das cidades observando a arquitetura e a vida urbana. Não foi diferente ao chegar em Congonhas a 3 meses atrás. Minha expectativa estava voltada para o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, obra iniciada em 1757 e concluída em 1872 e que tem como destaque entre seus artífices Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), Francisco Vieira Servas e Manoel da Costa Ataíde.

O santuário em Congonhas é composto por uma igreja localizada no topo de um sacromonte e no seu caminho, além da escadaria com esculturas em pedra (os famosos profetas de Aleijadinho), temos 6 capelas que narram os passos de Jesus. Tombado pela UNESCO como patrimônio mundial desde 1985, o Santuário é, segundo Mario de Andrade, o maior museu de escultura que existe no Brasil.

Ao finalizar minha peregrinação no santuário me dirigi ao museu. Ao contrário da tendência de se fazer "museus esculturas", o museu de Congonhas não nos surpreende por fora e é bem capaz que alguns desavisados até passem por ele.

Fachada do Museu de Congonhas
O museu é voltado para a história do santuário e da obra de Aleijadinho. Nos conta, através da sua interatividade, a história de Bom Jesus de Matosinhos, o início até o término da construção do santuário, passa pelo repúdio que suas esculturas causaram aos intelectuais do séc. XIX, a sua "redescoberta" pelos modernistas no início do séc. XX, o título dado pela UNESCO em 1985 e também pelas intervenções de restauro que sofreu ao longo do tempo.

Nos explica em detalhes todas as cenas das 6 capelas.

Nos explica de forma visual e didática os ofícios tradicionais e suas ferramentas.

instalação com ferramentas de ofícios tradicionais


Como não podia deixar de ser, em um museu voltado para a história de um santuário destinado a receber peregrinos, temos uma sala com exvotos.
ex votos
Ao final, nos deparamos com 2 réplicas 3D dos profetas e os espaços que aguardam as demais.


vista lateral do museu
Posso concluir o post dizendo que o Museu de Congonhas é um livro aberto que nos permite mergulhar de cabeça na história e na cultura brasileira. 

É uma visita imperdível que complementa a visita ao Santuário e, ao contrário de algumas práticas da "indústria cultural",  não inibe e nem direciona a percepção do visitante justamente por ser feita em um momento distinto à peregrinação no conjunto arquitetônico. 

* imagens da autora
* Matéria da revista Veja: Contra a crise, museus, pags. 94-97  - edição de 26 de julho de 2017

Postado por Cristiane Py