terça-feira, 10 de outubro de 2017

Um exemplo de recuperação de estrutura em concreto armado

Tivemos vários posts no blog falando de técnicas de restauro dos ofícios tradicionais. Por isso hoje vamos falar do restauro de estruturas em concreto armado, tendo como exemplo um trabalho fiscalizado pelo nosso escritório.

O trabalho apresentado neste post foi a revitalização de sacadas de edifício residencial. As estruturas recuperadas se referem as lajes de concreto do piso da sacada em balanço dos pavimentos tipos.

Como poderemos ver nas imagens abaixo a estrutura de concreto se encontrava deteriorada por causa da oxidação das armaduras.

Após a retirada dos guarda-corpos em alumínio se evidenciou ainda mais a degradação.

Abaixo imagens dos componentes da estrutura/fixação em ferro dos guarda-corpos mostrando seu estado de deterioração.

O primeiro procedimento para recuperação da estrutura foi escarificar a área da laje onde ocorreu oxidação das armaduras. Nas imagens abaixo temos a estrutura já sem o concreto desagregado e a armadura limpa.

O passo seguinte foi tratar a armadura com Nitto Primer (material de galvanização a frio) 

Para melhor aderência do concreto novo com o antigo foram utilizadas telas metálicas galvanizadas, além do uso do adesivo Compound. Em seguida executou-se a forma de madeira.

Abaixo vemos a laje refeita e o piso da sacada em granito já recuperado. Reparem o detalhe do pino em aço inoxidável fixado com bucha química substituindo o antigo componente de fixação de ferro.

Conclusão:

A degradação da estrutura em balanço de concreto armado das sacadas foi causada pela infiltração de água e oxidação da ferragem ocasionando rachaduras, desagregação do concreto e surgimento de vegetação.

A infiltração da água na estrutura surgiu no local da fixação dos guarda-corpos em função da não compatibilidade entre ferro e alumínio.

*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Segue a dica: visita ao centro histórico de Santana de Parnaíba - SP

Acredito que muitos paulistanos não conheçam mas bem próximo da nossa cidade encontramos o centro histórico da cidade de Santana de Parnaíba reconhecido desde 1982 como Patrimônio Histórico pelo CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO).
Fica tombado o Centro Histórico da Cidade de Santana de Parnaíba, [...], como conjunto de importância especial e de interesse maior por possuir valores de ordem histórica, arquitetônica e urbanística que o situam de modo relevante no Patrimônio Cultural do Estado de São Paulo.

A cidade, fundada no ano de 1580, é um dos primeiros núcleos urbanos do interior de São Paulo, bem como também foi a pioneira na geração de energia elétrica. Além do patrimônio edificado, representado por construções em taipa (algumas já reconhecidas pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1958), a cidade também é rica em patrimônio imaterial (1), com festividades no decorrer do ano inteiro, recebendo um público numeroso.
Além de possuir interesse histórico e cultural, a cidade também faz parte de três  roteiros integrados, a saber: ela é o marco zero da rota turística denominada Caminho do Sol, com destino à Casa de Santiago, em Águas de São Pedro, rota inspirada na proposta do Caminho de Santiago de Compostela; é parte integrante do roteiro histórico-cultural conhecido como Roteiro dos Bandeirantes, que abrange 9 cidades relacionadas à expansão bandeirante; e também integra o Circuito Taypa de Pilão, roteiro turístico histórico-cultural de visitação em imóveis construídos em taipa e tombados pelo IPHAN.
Outro fator importante é concernente ao fato de que o centro histórico está localizado a apenas 35 km do maior centro metropolitano do país, a Grande São Paulo, de modo a poder receber turistas e estudantes sem a necessidade de realização de longas viagens ou de alojamento local.
Fica então a dica de passeio para o fim de semana!
* imagens da autora
Postado por Cristiane Py


1 - As festividades que constam no calendário da cidade são: Carnaval, Drama da Paixão, Festa do Cururuquara, Corpus Christi, Encontro de Antigomobilismo, Festa da Padroeira da Cidade, Presépio e Cantada de Natal. Além desses eventos, também tem-se a Feira de Artes e Artesanato e o evento Música da Praça.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Curiosidade - O Rockefeller Center sem a pista de patinação.


A preservação do patrimônio moderno vem gerando várias discussões referente à metodologia e às técnicas a serem utilizadas.

A existência de documentos (desenhos, plantas, perspectivas, fotos, vídeos, maquetes, etc..) é o que gera mais discussão pois se acredita que, tendo esses documentos em mãos, seja possível reverter a edificação ao seu original ou até reconstrui-la (ver o post Check Point Charlie).

Com já foi citado em outros posts, o restauro do patrimônio edificado não visa um retorno do bem à sua configuração original pois as marcas, mudanças e acréscimos ocorridos durante o tempo também fazem parte do patrimônio e devem ser estudadas e analisadas segundo metodologias próprias.

Ao introduzirmos essa questão, gostaria de falar de uma curiosidade referente ao complexo do Rockefeller Center localizado em Nova Iorque - EUA e reconhecido como patrimônio nacional.

Segundo Kenneth Frampton, o Rockefeller Center começou como uma grande peça de desenvolvimento imobiliário, com base no desejo do Metropolitan Opera Company de ter um novo auditório em um novo local mas, em função da crise, os planos mudaram e quem se instalou no complexo foi a Radio Corporation of América e suas subsidiárias. Ou seja, é muito comum uma construção não seguir as idéias do projeto inicial sendo ele modificado várias vezes (além das mudanças ocorridas durante a execução da obra que acabam não sendo registradas).

Bom, o mais curioso do projeto do Rockefeller Center está relacionado a sua famosa pista de patinação ao ar livre. Essa pista não fazia parte do projeto original. Ela e os restaurantes foram construídos, segundo Frampton, alguns anos depois em função da falência das lojas que haviam sido previstas inicialmente.

Não só o Rockefeller Center mas muitas outras edificações passaram por transformações e mudanças  no decorrer do tempo. Ao se restaurar um patrimônio edificado deve-se sim usar como material de pesquisa todos os documentos disponíveis mas lembrando que serão os valores culturais do patrimônio (cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos e éticos, segundo Menezes) que deverão ser levados em questão.

* imagens da autora
Postado por Cristiane Py

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Jornada do Patrimônio: a técnica do micro jateamento.

No fim de semana dos dias 19 e 20 de agosto aconteceu na cidade de São Paulo a Jornada do Patrimônio. Foram 2 dias de visitas a imóveis históricos, roteiros de memória, oficinas, palestras e apresentações artísticas.

A programação foi ampla, atingindo todas as regiões da cidade, o que torna bem complicado falarmos da Jornada por inteiro, por isso selecionei, para este post, apenas a oficina Os Desafios da Limpeza de Superfícies de Edificações Históricas: o caso do Theatro Municipal.

Acho importante comentar que em 2015 desenvolvi um trabalho sobre cantaria para o Curso de Gestão de Restauro do CECI. Neste trabalho segui um roteiro no Centro de São Paulo analisando os danos e as patologias em pedras de cantaria. O Teatro Municipal fazia parte desse roteiro e um dos maiores danos na cantaria do teatro verificado na época foi o grafitismo (pichação).

Na oficina da Jornada tive oportunidade de participar da limpeza que está sendo executada na fachada incluindo a limpeza do grafitismo, patologia já verificada em 2015.

A técnica, testada e adotada pelo escritório Pires Giovannetti Guardia, foi o do microjateamento com areia garnet abrasiva. O trabalho foi nos apresentado pelos arquitetos Juca Pires e Mariana Rillo e realizado pela equipe do escritório.

Abaixo algumas imagens do processo.

aplicação do microjateamento com areia garnet abrasiva.
Importante falar que a pressão do jato bem como a sua duração foi testada previamente em cada superfície.
parte superior grafitismo não removido
parte inferior grafitismo removido
grafitismo removido. Percebe-se um pequeno clareamento na área aonde foi aplicado o micro jateamento
Após a limpeza, é aplicado, por pulverização, um produto unimineral para proteção da cantaria. Esse produto não permitirá que a tinta de futuros atos de vandalismo se impregne na cantaria, permitindo uma fácil remoção.

O trabalho da limpeza do grafitismo na fachada poderia ter sido evitado se a sociedade tivesse consciência do valor histórico e cultural do monumento ou seja, investimentos devem ser feitos não só para o desenvolvimento de técnicas para preservação e restauro do Patrimônio Edificado mas também para a Educação Patrimonial que, ao meu ver, deve ser iniciada já na educação infantil.



*imagens da autora - 19-08-2017

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Frase inspiradora:

"..., o novo deve produzir-se segundo metodologias científicas e o velho deve ser conservado segundo metodologias científicas. Portanto, o debate não é entre velho e novo, nem tampouco entre pessoas que gostam do velho e pessoas que gostam do novo, mas entre duas disciplinas cujas diferenças metodológicas sempre poderão resolver-se no plano dialético."

Giulio Carlo Argan
História da Arte como história da cidade-pag. 89

Postado por Cristiane Py

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Museu de Congonhas - um livro aberto sobre o santuário, a obra de Aleijadinho e a cultura brasileira.

Essa semana saiu uma matéria na revista Veja falando sobre os "museus de identidade" que surgiram ou que estão em fase de projeto no Brasil. Entre eles podemos citar o museu do Cais do Sertão em Recife, o museu do Amanhã no Rio de Janeiro, o Japan House em São Paulo e o museu de Congonhas. Este último será o assunto do post de hoje.

Esses museus, que não possuem coleções, fogem do modelo tradicional e, através da tecnologia e da interatividade, expõe os valores imateriais da nossa cultura.

Eu devo admitir que nunca fui muito fã de museus. Sempre preferi, em minhas viagens, perambular pelas ruas das cidades observando a arquitetura e a vida urbana. Não foi diferente ao chegar em Congonhas há 3 meses. Minha expectativa estava voltada para o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, obra iniciada em 1757 e concluída em 1872 e que tem como destaque entre seus artífices Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), Francisco Vieira Servas e Manoel da Costa Ataíde.

O santuário em Congonhas é composto por uma igreja localizada no topo de um sacromonte e no seu caminho, além da escadaria com esculturas em pedra (os famosos profetas de Aleijadinho), temos 6 capelas que narram os passos de Jesus. Tombado pela UNESCO como patrimônio mundial desde 1985, o Santuário é, segundo Mario de Andrade, o maior museu de escultura que existe no Brasil.

Ao finalizar minha peregrinação no santuário me dirigi ao museu. Ao contrário da tendência de se fazer "museus esculturas", o museu de Congonhas não nos surpreende por fora e é bem capaz que alguns desavisados até passem por ele.

Fachada do Museu de Congonhas
O museu é voltado para a história do santuário e da obra de Aleijadinho. Nos conta, através da sua interatividade, a história de Bom Jesus de Matosinhos, o início até o término da construção do santuário, passa pelo repúdio que suas esculturas causaram aos intelectuais do séc. XIX, a sua "redescoberta" pelos modernistas no início do séc. XX, o título dado pela UNESCO em 1985 e também pelas intervenções de restauro que sofreu ao longo do tempo.

Nos explica em detalhes todas as cenas das 6 capelas.

Nos explica de forma visual e didática os ofícios tradicionais e suas ferramentas.

instalação com ferramentas de ofícios tradicionais


Como não podia deixar de ser, em um museu voltado para a história de um santuário destinado a receber peregrinos, temos uma sala com exvotos.
ex votos
Ao final, nos deparamos com 2 réplicas 3D dos profetas e os espaços que aguardam as demais.


vista lateral do museu
Posso concluir o post dizendo que o Museu de Congonhas é um livro aberto que nos permite mergulhar de cabeça na história e na cultura brasileira. 

É uma visita imperdível que complementa a visita ao Santuário e, ao contrário de algumas práticas da "indústria cultural",  não inibe e nem direciona a percepção do visitante justamente por ser feita em um momento distinto à peregrinação no conjunto arquitetônico. 

* imagens da autora
* Matéria da revista Veja: Contra a crise, museus, pags. 94-97  - edição de 26 de julho de 2017

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Frase inspiradora:

"Quando a arquitetura é vista como um processo contínuo, no qual as teses e antíteses são dialeticamente integradas, ou como um processo em que a história está tão intimamente envolvida quanto a antecipação da história, em que o passado tem o mesmo peso do olhar voltado para o futuro, então o processo de transformação não é apenas o instrumento do design, mas o próprio objeto deste. Ao mesmo tempo, torna-se possível fazer referência à realidade específica de cada lugar individual onde a arquitetura será construída - e portanto, ao genius loci -, e descobrir a poesia do lugar e dar-lhe expressão. Assim, o lugar é usado da melhor maneira possível."*

                     Oswald Matthias Ungers

* em História Crítica da Arquitetura Moderna, Kenneth Frampton, pag. 360.

Postado por Cristiane Py