sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Memórias Preservadas



"Os azulejos portugueses, no balcão sob a janela, seduziram a minha avó e a convenceram a comprar esta casa, nos anos 50. Depois que ela faleceu, em 2004, eu decidi morar aqui, mesmo sabendo que os espaços precisavam se adaptar aos dias de hoje. A questão é que eu não queria descaracterizar o imóvel e perder as histórias da família, que me faziam olhar cada canto com carinho. Como os azulejos também me encantavam, eu os restaurei. A fachada mudou de cor, mas continua com os ornatos brancos de concreto. Graças às sugestões da arquiteta Cristiane Py, os ambientes ganharam luz natural e atrativos como a lareira. Ela transformou o segundo pavimento em área de lazer com ôfuro e churrasqueira. Eu ainda não sou casado nem sou pai, mas ficaria satisfeito se meu filho passasse por aqui".

Alexandre David em depoimento para revista Arquitetura & Construção junho de 2009.


São Paulo é uma cidade que está envelhecendo, e a revitalização e restauro das edificações se faz importante não só para as construções antigas se adaptarem aos novos tempos, mas também para manter as memórias preservadas.

O olhar do arquiteto voltado para os valores cognitivos, formais, afetivos, pragmáticos e éticos  para as antigas edificações é o primeiro passo para um projeto que não apague nossa história.

Abaixo seguem imagens dessa morada restaurada e revitalizada na Vila Beatriz em São Paulo e que foi destaque em matéria na revista arquitetura&construção.

Detalhe do balcão de azulejos que encantou a avó do novo morador e foi restaurado
Vista do balcão de azulejos para o jardim
Detalhe da lareira. O duto para escoamento da fumaça foi feito externamente e aparente. Pintado de branco ele se integrou a fachada.


Ôfuro construido no anexo da casa, sobre a garagem e com acesso direto para a sala íntima do pavimento superior. Aqui o projeto optou em demolir parte do andar superior do anexo para "desafogar" a construção principal e criar a área de lazer com churrasqueira e ôfuro.
Vista da fachada principal.
O telhado foi restaurado e, com as novas tecnologias da engenharia, uma laje foi construída sob o telhado em substituição ao forro de estuque sem a necessidade do seu desmanche.
Copa integrada com a cozinha. Ampliação da janela com vista para o jardim social
Detalhe da caixa de correio. 
Detalhe da porta principal. Vão, soleira e ornatos foram mantidos os originais. A nova porta permite iluminação natural. O vidro frontal protege a madeira dos cachorros.
Área de lazer no segundo pavimento da edícula.
Detalhe do projeto paisagista com piso em mosaico português. Resgatando as memórias.
Gradil de ferro que permite a integração do jardim da residência com a cidade. Resgatando os valores da cidade-jardim
A parede lateral da escada foi removida e uma abertura no hall superior permitiu iluminação natural em uma área que antes era enclausurada.




*imagens da autora
Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Frase inspiradora:

"Qualquer restauração coloca, a todo o instante, questões novas e imprevistas, que é necessário resolver se conformando mais ao espírito do que à letra da teoria e mantendo rigorosamente o método." 


Gustavo Giovannoni
Textos Escolhidos - Artes&Ofícios -pag. 190

Postado por Cristiane Py

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Visita à Igreja São Domingos depois do restauro.

Em novembro de 2015, visitei, junto com a turma do CECI, a obra de restauro  da Igreja São Domingos, localizada no Pelourinho em Salvador. No post Restauro de pinturas parietais - Igreja de São Domigos - Salvador- Nov-2015 falamos das metodologias e técnicas que estavam sendo usadas.

Em novembro de 2017, visitei novamente a Igreja, já com a obra de restauro finalizada. Abaixo seguem fotos do resultado. A última imagem mostra que o projeto de restauro contemplou também a acessibilidade.


*imagens da autora
Postado por Cristiane Py

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Segue a dica: os livros de cabeceira.


Acima vemos a imagem dos livros que fazem parte da coleção Artes&Ofícios publicados pela Ateliê Editorial e que contém os principais textos dos pensadores que refletiram e atuaram na área da restauração e da preservação. 

Todos os livros contém textos de apresentação de estudiosos contemporâneos - Beatriz Kühl, Andrea Pane, Giovanni Carbonara, Maria Lucia Bressan Pinheiro, entre outros - que introduzem o leitor na rica leitura que se seguirá.

O livro número 01 - Restauração, de Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc - foi assunto do segundo post do blog: O Arquiteto, O Pesquisador, O Inspetor, O Restaurador, O Gestor e também foi inspiração para o post Missão Cumprida.

O livro número 07  - A Lâmpada da Memória, de John Ruskin - foi assunto do primeiro post do blog - O Escritor, O Crítico, O Romântico, O Humanista.

Os demais livros são:

- Número 03 - Os Restauradores, de Camillo Boito.

- Número 05 - Teoria da Restauração, de Cesare Brandi.

- Número 08 - O Catecismo da Preservação de Monumentos, de Max Dvorák.

- Número 09 - Gustavo Giovannoni - Textos Escolhidos.

- e finalizando a coleção, o número 10 - Cartas a Miranda - Sobre o Prejuízo que o Deslocamento dos Monumentos da Arte da Itália Ocasionaria às Artes e à Ciência de Quatremère de Quincy.

Fica aqui a dica dos livros de cabeceira para todos os interessados na preservação do patrimônio edificado!!!


*imagens da autora

Postado por Cristiane Py

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ArquiMemória 05 - Encontro Internacional sobre Preservação do Patrimônio Edificado

No final do mês passado teve início em Salvador - BA, o encontro internacional ArquiMemória 5. Foram 5 dias de palestras, mesas redondas, apresentação de trabalhos e lançamentos de livros voltados para a Preservação do Patrimônio Cultural.

Difícil expor tudo o que foi discutido no encontro mas resolvi eleger, para este post, um projeto apresentado pelo consultor da Unesco e arquiteto italiano atuante há mais de 50 anos na área da preservação e do restauro, Andrea Bruno.

O arquiteto abriu o primeiro dia de palestras falando sobre a sua vivência de criança no período de guerra; sobre as casas bombardeadas e destruídas; sobre os brinquedos quebrados e sobre as memórias perdidas.

Falou também da destruição dos Budas de Bamiyan no Afeganistão e das Torres Gêmeas em Nova Iorque (vamos fazer um post só sobre esse assunto, aguardem!) e mostrou vários projetos executados durante a sua carreira.

O projeto que vamos falar neste post será a restauração e adaptação em campus universitário do Fort Vauban na cidade de Nimes na França, projeto de 1991-95.

Escolhi para falar desse projeto por 2 motivos:

- Já falamos aqui no blog de uma intervenção na cidade de Nimes no post A importância do diálogo nas intervenções de restauro - Parte III.

- No post A importância do diálogo nas intervenções de restauro, finalizei colocando a questão abaixo:

"Seria válido apresentar um projeto que não atendesse ao edital do concurso? A resposta é sim. Apesar do risco de desclassificação há alguns casos de projetos vencedores com soluções mais bem resolvidas e que propunham novas diretrizes fugindo das impostas pelo edital."

O projeto, para restauração e adaptação do Fort Vauban do arquiteto Andrea Bruno em Nimes, foi vencedor de um concurso de arquitetura aonde ele propôs novas diretrizes, fugindo das que constavam no edital, acreditando que não só era importante a preservação do Forte, como também a preservação da memória do antigo presídio que funcionou no local até o ano de 1991. 

O partido do projeto buscou: o mínimo de demolições; revitalizar as construções pré-existentes; não apagar os traços do tempo e construções novas não sobrepostas às existentes. Além disso, as novas intervenções foram projetadas de forma a serem apoiadas e reversíveis e explicou que reversível não significa provisório, mas sim que possibilite novas adequações no caso de mudança de uso ou novo programa.

Abaixo imagens do projeto.

Croqui

imagem aérea google earth
Passarela de acesso sobre o antigo fosso do Forte
À esquerda nova edificação.
À direita edificação revitalizada.
Teatro com estrutura de fácil reversibilidade (no caso de mudança de uso ou novo programa)
Conforme falei no começo do post, foram 5 dias de ricos debates. O projeto da Universidade de Nimes foi apenas um dos vários bons projetos apresentados no encontro, mas continuem acompanhando o nosso blog pois postaremos interessantes temas discutidos no ArquiMemória 5.

* imagens da web - acesso dez-2017

Postado por Cristiane Py

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Castelo Saliceto - Um projeto de restauro


A imagem que vemos acima é do Castelo Saliceto, na Itália, após intervenção de restauro de autoria do escritório de arquitetura armellino&poggio.

Esse projeto, vencedor do Prêmio Internacional Domus Restauro e Conservação Fassa Bartolo, prevê o uso da edificação como uma garantia para a sua preservação (lembrando que o uso é uma das principais premissas para a conservação de um bem cultural).

A construção do castelo, resultado de sucessivas transformações, ainda mantinha as características típicas de uma arquitetura fortificada apesar da perda de uma das 4 torres do conjunto.

Abaixo, vemos imagens do projeto onde podemos visualizar a edificação antes da intervenção e a proposta de restauro.

A nova torre, que usa materiais contemporâneos, recompõe a volumetria do conjunto sem criar um falso histórico. A nova estrutura, independente da edificação pré existente, comporta a circulação vertical com escada e elevador.

"A restauração, para representar uma operação legítima, não deverá presumir nem o tempo como reversível, nem a abolição da história."

Cesare Brandi - Teoria da  Restauração - pag. 61




Para mais detalhes do projeto de restauração do Castelo Saliceto acesse os sites abaixo:


*imagens da WEB - acesso em nov/2017

Postado por Cristiane Py

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Frase inspiradora:

"Tanto a revitalização de um edifício existente quanto a inserção de uma obra moderna em um entorno histórico são, [...], operações extremamente delicadas. Não só pelos efeitos da incorporação de nova tipologia funcional, que pode ser necessária, mas pela qualificação formal dessa tipologia que, sem cair na mera imitação, seja capaz de alcançar a continuidade cultural que foi natural na arquitetura durante séculos, sem perder por isso sua própria modernidade, essa continuidade tornada tão difícil pelas grandes transformações do século XIX e pelas transculturações que caracterizam nossos países [latino-americanos]."

Marina Waisman
O Interior da História: historiografia arquitetônica para uso de latino-americanos - pag.194

Postado por Cristiane Py